quinta-feira, 27 de maio de 2010

Força!


"Moça, olha só, o que eu te escrevi:
É preciso força pra sonhar e perceber
que a estrada vai além do que se vê"
(Além do que se vê - Los Hermanos)

Outro dia um cavalheiro abriu a porta de vidro da Faculdade de Matemática para eu passar. Quando agradeci, ele me olhou nos olhos e disse "força!", com naturalidade e sorriso bem próprios das pessoas gentis.

Numa segunda ou quarta-feira dessas, me ofereci para ler um trecho do Livro do Desassossego quando o professor de barba grisalha, bem aparada, pediu um voluntário. Antes que eu começasse a série irônica de Bernardo Soares ele disse "força!" e voltou logo o olhar para a folha de papel xerocado com as palavras que já já eu iria declamar para a turma.

Num almoço de algumas semanas atrás, na cantina da sereia (ou foi na das medicinas?), esqueci de pegar a colher de sopa. Voltei e pedi licença, no meio da fila, para esticar o braço e alcançar os talheres. A menina que abriu brecha para mim sorriu e: "força!" mais uma vez.

Cá na 'terrinha', quando se diz "força!" (o ponto de exclamação é nota minha) é algo como "vá em frente!". Esses portugueses... são mesmo muito literais. Como já cantava o Camelo, é mesmo preciso força pra ir em frente, pois não?


Foto1: Cantina da Sereia.
Foto 2: Aula de Estudos Pessoanos I. Dr. José, de barba grisalha, bem aparada, ao fundo.

P.S.: "Pois não?" = "Não é?"

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Comida, bebida, diversão e arte!


Em torno destas quatro necessidades vitais vão se estender as minhas delongas sobre a Queima.

A parte da diversão não precisa ser esclarecida. Muito menos a da bebida. Vocês entenderão facilmente. Quanto à comida, bem, Coimbra pára mas a minha vida não e como não se vive sem comer e quem não trabalha não come, trabalhei. Muito. Tanto no museu quanto com promoção e isso também entra nos posts seguintes.

A arte! Que seria de mim sem ela? Nas vésperas da Queima fui ao Museu Machado de Castro assistir Heráclito. Uma dessas tragédias gregas em que um deus resolve acabar com a vida de um mortal. Este Museu abriga um pórtico do século I, com aquelas passagens arqueadas e paredes de pedregulhos que remetem a trocentos anos atrás. Ainda que o espetáculo tenha sido no pátio externo e não na velha construção, a apresentação ao ar livre não foi, por isso, menos envolvente. As músicas, a indumentária, a iluminação e a própria arquitetura do museu contracenaram harmoniosamente com os atores. Uma boa dose de arte, da maneira mais clichê, para encher a minha alma antes de cair na folia conimbricense.

Mas não quero, é claro, excluir o caráter artístico da grande Queima das Fitas. Estamos falando de grandes artistas e grandes obras de arte! A arte de transformar papel crepom em carros alegóricos. De ser equilibrista, trepidar mas manter-se de pé em um caminhão que freia de um em um minuto após doses e mais doses e mais doses... A arte de calar para ouvir e sentir a serenata. A arte da tradição! Como foi bom fazer parte. Desde que eu era pequena minha mãe diz que adoro fazer arte. Repito: que seria de mim sem ela?

Pois. Justificada a minha abordagem das próximas atualizações, deixo vocês com gostinho de Queima na boca. Adianto que foram sete dias de folia e brincadeira mas que eu, sendo uma só, não consegui abraçar tudo. Vejam bem, tentem entender a dimensão do "coiso"! Houve torneio de bilhar, poker, caça ao tesouro, guerra de travesseiro, tourada, baile, chá dançante, concuso de banda e tal e coisa e coisa e tal que vem se estendendo por bem mais que sete dias! Vou, timidamente, falar à vocês da pontinha do iceberg que tive o privilégio de vivenciar... mas não agora que já é hora de dormir.

Não se avexem, não. Já já tem mais!

terça-feira, 4 de maio de 2010

"Acalma o grelo. A queima vem aí."

Eis o enunciado do outdoor ao pé da Universidade.

A Queima das Fitas começa na madrugada de quinta para sexta. A imagem mais palpável que criei pelo que ouvi até agora é de um mar de estudantes portugueses, trajados com suas capas de super-heróis, às ruas de Coimbra, de peito estufado e com a certeza de que, como super-heróis da Queima, podem tudo.

Não há aulas durante os dias da Queima. Nem aulas nem nada, ou quase nada, além dela. Penso aqui com meus botões que deve lembrar vagamente o nosso Carnaval mas, é claro, com um "Q" bem grande de tradição secular. Eu e minha mania de comparar aqui e acolá.

Mais que uma desculpa para beber, é uma festividade tradicionalíssima não só em Coimbra como em Portugal de maneira geral. Há no Porto, há em Lisboa, mas não é vivida com a mesma intensidade que na mais estudantil cidade lusitana. Pelo menos foi isso que me disse a Sophia, minha colega de estágio.

Sophia é casada a um ano e conheceu seu atual marido na Queima de 2001. Foi mais ou menos assim:

Estava ela com orelinhas de Minie que acabara de ganhar no happy meal (Mc lanche feliz) a percorrer as enumeras barracas de bebidas. A cada shot tomado era menos um pouco para a meia noite. Estava a espera das badaladas para comemorar o seu aniversário quando ele veio.

- Porque tás a usar estas orelhas? perguntou ele.
- Porque faço anos.
- Não, credito. Pois faço também! Como te chamas?
- Sophia, e tu?
- Não vais apanhar, são só três letrinhas...
- Hum, deixa-me pensar... Rui!
- Isso mesmo! Acertastes. És a mulher da minha vida, serás mãe dos meus filhos.

(É, rimos muito juntas! Podem rir daí também. Foi bem desse jeitinho.)

Uma semana depois, no show da Daniela Mercury, começaram a namorar.

Não, meus queridos brasileiros, não estou a dizer que a Queima é o lugar mais propício para dar inicio a romances eternos. É mais para histórias eternas. É justamente a raridade do acontecimento que o torna especial. Tão especial que vai entrar para o meu repertório. Afinal, é mesmo disso que é feita a boa vida: momentos raros e especiais.

Mas vamos falar da Queima tradicional.

Renderia, pá, linhas infinitas falar de todos os detalhes dessa festividade. Vou deixar para contar depois que eu ver tudinho com esses olhos que a terra um dia há de comer. Menos disse me disse e mais téti a téti. Por enquanto vou esclarecer apenas o tal do grelo.


É que na Queima das Fitas os estudantes do segundo ano das faculdades queimam a ponta do grelo no caldeirão em frente à Sé Nova. "Izatament", o grelo: uma fita, tipo de lã, da cor do curso, que eles levam junto ao peito no dia da Queima. O grelo faz parte do traje e só se pode usar depois deste ritual. Daí nome.

Depois disso, o grelo ainda é usado para umas tantas outras coisas mas isso é assunto para um outro post...

P.S: Foto 1, Serenta no primeiro dia da Queima, em frente à Sé Velha. Foto 2, queima do grelo em frente à Sé Nova.