domingo, 10 de outubro de 2010

À procura da batida perfeita.

Estou sem mp3. De novo. Aí atrapalha. Por exemplo: é facinho correr uma hora na esteira ao som de Benjor, mas sem... Me mantenho por 15 minutos, até chegar as primeiras gotas de suor e o tédio. Começo a perceber que corro, corro e não saio do lugar. Com música, vou à tantos. Vou à Taj Mahal, vou pro Hawai, volto à Portugal, ao carnaval, aos meus 22 anos... Ah, meus 22 anos... Meus dispositivos sonoros são quase uma máquina do tempo.

E as músicas novas! Não encaixotem essa frase na caixa dos lançamentos! Novas são aquelas que eu descubro perdidas pelo mundo e passam a embalar meu dia de um jeito diferente, pra deixar o passado descansar um pouquinho. São presente pra trilha sonora da minha vida.

Ando querendo ir à um karaokê. Mas que não seja um daqueles cheios de "profissionais". Quero um onde que os interpretes cantam cheios de vontade, o que nem sempre equivale à afinação. Combina mais comigo e assim corro menos risco de levar tomatadas.

Às vezes consigo driblar essa minha vontade de lararirá. Durante a uma hora e pouca que chacoalho no 217 em direção ao trabalho pela manhã, alguns livros têm me ajudado a superar a falta de um bom som. Mas em outras eu sinto, sinto muito... Como quando tento pôr em ordem o mafuá do meu quarto. É praticamente impraticável sem um ritmo pra dinamizar a minha missão (quase) impossível.

Ritmo. É isso. Há que se ter certo ritmo para as coisas se desenrolarem. Um ritmo para cada coisa, um tempo, um batimento... ou uma batida. É, acho que é isso: A vontade de me encontrar com a batida perfeita.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

Carinho de fim de tarde

Nas árvores em frente à minha casa moram morcegos. Quando eu era pequena achava que um deles podia invadir meu quarto à noite e, como naquelas histórias de terror, morder meu pescoço enquanto eu durmia. Mas eu tenho a sorte de ter morcegos bacanas como vizinhos. Hoje um deles dançou pra mim. Não sei se era porque a chuva estava chegando ou se por puro exibicionismo ele voava de uma árvore para a outra em frente à minha janela enquanto o céu escurecia. Quando ele parou as primeiras gotas começaram a cair. Com os braços cruzados no parapeito pude sentir os primeiros pingos me acariciando a pele por um tempinho. Na verdade a chuva não passou disso: alguns pingos que acariciavam o fim da tarde.

sexta-feira, 27 de agosto de 2010

Um último beijo

Minha alma canta. Era assim que começava a música a soar dentro de mim quando o avião se aproximava do chão. Tem muita verdade nos clichês e realmente não há lugar como o nosso lar. Há um pouco mais de uma semana que revivo minha vidinha carioca e tem horas que parece que eu nunca estive fora. Estou muito, muito feliz mesmo, em estar de volta. Algumas pessoas me perguntam se eu não gostava de lá. Eu adorava. Lá é uma delícia, mas eu prefiro aqui, ainda que nem tudo seja flores.

É fácil pensar que há flores por todos os lados quando se está longe mas a realidade não é tão gentil quanto os nossos pensamentos. A coisa é que na 'terra dos pensamentos' dá pra brincar com a realidade e dar a ela os contornos que quiser. A 'terra firme' nem sempre sustenta essa ficção. A realidade é que a realidade daqui me rasgou por dentro. O que não é de todo mal. Quando mexe dentro da gente, a gente se mexe.

Esse é um post de despedida. Não sou muito boa em dizer tchau então não me admira nada que não seja o mais lindo post aqui publicado. Mas eu precisava de um último beijo. Um beijo de adeus. Por favor, sintam-se beijados com gosto de vinho do Porto e pastel de Belém.

É, é um post triste. Mas é também feliz na sua tristeza. Às vezes é preciso se desfazer de coisas queridas para abrir espaço para outras. A noviça rebelde me disse quando eu era pequenina que sempre que Deus fecha uma porta ele abre uma janela. É mais ou menos isso: fecho as portas do “Ora, pois!” e abro a janela do “Tertúlia em Caracóis”.

Obrigada a todos que leram com carinho as minhas palavras distantes, que me fizeram sorrir com comentários amáveis e me acompanharam até aqui. O simples fato de saber que vocês viveriam comigo cada letra foi meu maior incentivo. Obrigada especialmente para quem pediu que eu não parasse. Me convenceu. Agradeço mais uma vez e convido para entrarem pela janela. Confabulem comigo. Fiquem à vontade:

www.tertuliaemcaracois.blogspot.com

segunda-feira, 16 de agosto de 2010

Estou a dois passos do paraíso

Em dois dias desembraco no Aeroporto Internacional Antônio Carlos Jobim, vulgo Galeão, com muita bagagem a mais do que eu trouxe. Ponto.

Apesar o título prometer uma declaração à cidade maravihosa, este post não é para isso. É para dizer que seguem, abaixo deste, os dez dias da trip Poly, Angela, Barcelona, que inclui Porto, Lisboa e Girona também mas foram passagens para aquela que era a idéia principal. Teria sido bacana se eu colocasse um de cada vez nos seus respectivos dias mas só tive tempo de organizar melhor os textos agora, então, aí vão.

Décimo dia; 14/08

"Tudo que é bom dura o tempo necessário
para se tornar inesquecível."

Hora de dar "até logo" para Angela. Ela vai e eu fico mais dois dias. Passamos a manhã a organizar as coisas e enfim: aeroporto. Houve tempo de uma lazanha de mariscos antes de deixar a irmã mais linda que eu tenho pegar o vôo.

Foi um tempo bom que durou. Nem muito, nem pouco: durou. Foi tempo de malhar as batatas da perna, tocar e ver de verdade o que nos mostravam as fotografias online, tempo pra gente se conhecer mais e perceber que nos conhecemos pra além do que imaginávamos. Ainda que algumas coisas não sejam ditas, a gente sabe, e sabe que sabe. Era na propaganda da Sadia que dizia: "é bom saber que alguém te ama de verdade, bom saber que alguém e quer tão bem"? Acho que era... E o querer bem "apesar de" é a magia da coisa. Os apesares que fazem da relação algo especial. Saber que o nosso diferente tem um 'quê' de semelhante e que o nosso semelhante quem um 'quê' de diferente, como cantam no forró, incrementa a relação com essa aura cintilante. É o Amor, minha gente. Não tenho como me cansar de falar Nele.

O dia ainda estava pela metade quando a deixei o que me deu o privilégio de ir à Quinta da Regaleira, em Sintra. Descobri que em Sintra existe um Palácio da Pena! Pena que estava tão longe e não dava pra eu ir. Isso até me soa familiar. Mas o palácio está lá.

De volta a morada em Oeiras, estava eu a divagar com meu branquinho perolado quando o Joaquim sugere um filme:

- Já viu Avatar? Tenho aqui.

Avatar é mesmo um filme que agrada a todos. Ou quase. Tem o romance para os mais sentimentais, tiros o bombas aos montes para quem gosta de "filmes de macho" e tem ideal para aqueles que sonham. Talvez por isso que eu entre no hall dos que gostam. Talvez não. Talvez seja só uma questão de afeto. Talvez me afete. De fato tem uma das coisas que me afeta nesse filme, que me cutuca, são os rituais. Deixamos os nossos cairem no esquecimento, mas os rituais são aquilo que tornam um dia diferente dos outros. Pode ser por isso que, muitas vezes, os dias parecem todos iguais.

Por um motivo ou por outro, eu gosto do filme e foi o assistindo, comendo salada com um queijo, pra variar, delicioso, presunto bem fininho e bebendo algumas taças de vinho que dei boa noite ao último dia da trip Poly, Angela, Barcelona.

P.S.: Aquele presunto rosado que temos no Brasil, aqui chama-se fiambre. Presunto aqui é aquele bem vermelho e salgado que a gente chama de parma.

Nono dia; 13/08

Dia de conhecer a parte nova de Lisboa. Tour arquitetônico contemporâneo para deleite das lentes fotográficas de minha irmã: Parque das Nações, Pavilhão do Conhecimento - Ciência viva, Pavihão de Portugal (mais uma do Siza), e... o Oceanário! Um áquario central gigantesco, com tubarões, peixinhos e peixões. Fora pequenos outros aquários periféricos com tudo quanto é bicho marítimo e outras espécies em representações de habitat com água e terra firme.

Tinha pinguím! Um deles não parava de se exibir na água. Dançava batendo as perninhas e sacudindo o bico pra lá e pra cá. Tinha ainda uns outros que eu aposto que estavam namorando, num cantinho sussegado, deitados, um com a cabeça sobre o outro. Sao tão fofinhos, tão carinhosos, deve ser esse o motivo de cairem tão fácil no gosto da gente.

Tinha aqueles seres quase mágicos que se movem como plumas nas águas e brilham. Tinha estrelas do mar, dragões marinhos e sapinhos minúsculos. E tinha crianças de toda Europa a perambular pelos espaços tão maravihadas quanto eu. Algumas com seus pais, outras em colônia de férias. Pois é, os miúdos têm muitas opções de férias por aqui: atividades nas praias, nos museus, nos parques, cursos, albergues... que sonho!

Depois de ver tanta vida marinha deu vontade de mar. Partiu praia de Cascais! Para melhorar, matei um poquinho da saudade de Coimbra com a companhia de Joana Júlia. Ô coisa boa! Ainda sobrou um restino de energia para ir à um concerto na Casa da Pólvora: XVIII Festival Sete Sóis Sete Luas. Tinha fado, musica espanhola, italiana, árabes... belíssimo ver gente que canta e toca de verdade.

Não importa o calor que faça durante o dia, à noite um casaco se torna necessário e quase indispensável por aqui. O friozinho nos impele ao aconchego noturno. Foi bom pra encerrar o dia.

Nono dia; 13/08

Dia de conhecer a parte nova de Lisboa. Tour arquitetônico contemporâneo para deleite das lentes fotográficas de minha irmã: Parque das Nações, Pavilhão do Conhecimento - Ciência viva, Pavihão de Portugal (mais uma do Siza), e... o Oceanário! Um áquario central gigantesco, com tubarões, peixinhos e peixões. Fora pequenos outros aquários periféricos com tudo quanto é bicho marítimo e outras espécies em representações de habitat com água e terra firme.

Tinha pinguím! Um deles não parava de se exibir na água. Dançava batendo as perninhas e sacudindo o bico pra lá e pra cá. Tinha ainda uns outros que eu aposto que estavam namorando, num cantinho sussegado, deitados, um com a cabeça sobre o outro. Sao tão fofinhos, tão carinhosos, deve ser esse o motivo de cairem tão fácil no gosto da gente.

Tinha aqueles seres quase mágicos que se movem como plumas nas águas e brilham. Tinha estrelas do mar, dragões marinhos e sapinhos minúsculos. E tinha crianças de toda Europa a perambular pelos espaços tão maravihadas quanto eu. Algumas com seus pais, outras em colônia de férias. Pois é, os miúdos têm muitas opções de férias por aqui: atividades nas praias, nos museus, nos parques, cursos, albergues... que sonho!

Depois de ver tanta vida marinha deu vontade de mar. Partiu praia de Cascais! Para melhorar, matei um poquinho da saudade de Coimbra com a companhia de Joana Júlia. Ô coisa boa! Ainda sobrou um restino de energia para ir à um concerto na Casa da Pólvora: XVIII Festival Sete Sóis Sete Luas. Tinha fado, musica espanhola, italiana, árabes... belíssimo ver gente que canta e toca de verdade.

Não importa o calor que faça durante o dia, à noite um casaco se torna necessário e quase indispensável por aqui. O friozinho nos impele ao aconchego noturno. Foi bom pra encerrar o dia.

Oitavo dia; 12/08

Acordamos cedo para (re) organizar as malas. Por sorte conseguimos encher uma delas com minhas papeladas e livros. Estes vão chegar antes de mim. Vão com a minha irmã para ver se assim não ultrapasso o limite de peso da bagagem. É tanta coisa pra levar... Fora a bagagem de mão. Fora a bagagem do coração.

Ainda pela manhã, comboio em Campanhã, no Porto, para a Estação do Oriente, em Lisboa. Deixamos as malas na casa do Joaquim, o amigo da Maria, em Oeiras, e não tardamos em cair na capital lusa.

Havia um roteiro, com mapa, foto, tudo explicadinho, mas sumiu e por isso resolvemos ficar nas mãos do nosso anfitrião. Pra começar, Fábrica da Pólvora, Torre de Belém, Mosteiro dos Jerônimos, Pastéis de Belém, Docas, Armazém do Chiado, Sopa de Pedra, Bairro Alto. Começamos bem, muito bem.

A torre - mesmo em cima do mar - , o mosteiro - que abriga Camões e Vasco da Gama - e os pastéis - que como os de lá não há igual - ficam todos no mesmo sítio. Foi à caminho deste sítio que passamos por Dafudo (é cada nome que esses portugueses inventam). Lá, à beira do mar e da linha de comboio, morava meu pai e mora o meu tio João. Nunca havia conhecido meu tio, nem falado com ele, nem visto se não algumas fotos, talvez, que me falham à memória. Mas eu sabia que alí ele morou com meu pai, vó Deodata e Vô Antônio Lourenço. E sabia que agora ele morava por alí em outra casa com a sua esposa.

Quando passavamos pela rua principal do lugarejo, ví em uma das ruas transversais a tal União Recreativa do Dafundo, o clube do qual minha mãe nos contou que meu tio fazia parte. Pensei: Ó pá, se calhar indo lá descobrimos onde mora o tio! Assim fomos à cata do João Lourenço, marido da Idalina. Chegando ao clube as informações que a minha mãe deu ao telefone foram precisas: "Sai do clube e olha para a esquera, na esquina. Viu uma casa verde? É alí, no primeiro andar."

Caminha, caminha, atravessa a rua, ajeita o cabelo, interfona, espera... Uma senhorinha abriu a janela e olhou com cara de "quem são estas raparigas?".

- Dona Idalina? Eu sou Polyana, ela é Angela. Somos sobrinhas do João. Filhas do Vitor.

Na simples casinha portuguesa, rimos com as histórias divertidas do João. Vimos fotos do meu pai maroto de boca de sino, jaqueta de couro, topete e bigodão. Soube que ele era estudioso e bonito de parar o trânsito, segundo o meu tio. E conversamos, conversamos, conversamos...

Foi assim que conhecemos nosso tio português. Foi assim que ele abraçou as sobrinhas brasileiras. Foi mesmo assim.

Sétimo dia; 11/08

"As estrelas são todas iluminadas...
Não será para que cada um possa um dia encontrar a sua?"

(O Pequeno Príncipe)

Como apresentar o Porto à minha irmã em um só dia se nem eu que fiquei quase dois meses dei conta de conhecê-lo como queria? Whatever... Vamos começar pelo Niemeyer de Portugal: Álvaro Siza. O arquiteto contemporâneo que fez a as Piscinas de Leça, a Casa do Chá, a Fundação Serralves, a estação de metro de São Bento, entre outras coisas, mas estas foram as que visitamos.

Entre as paradas em Siza teve descanso na praia, pizza de gambas (camarão), de atum, de salmão, de chouriço, Sagres ruiva, Haggen Dazz. A hora vai passando e a gente nem sente. Até porque o sol se mantém firme e forte até às vinte e tantas.

O dia acaba tarde mas o horário de funcinamento dos estabelecimentos não. Sorte a minha ter estado no Porto há mais tempo para desfrutar dos jardins de Serralves, das exposições, das salas da Casa da Música que por hora está em reforma. Por agora foram menos passeios por dentro, mais passeios por fora. Fomos à Catedral e de lá descemos as ruas tortas e estreitas até a Ribeira. O sol desceu conosco em passos lentos, compartilhando seu brilho com o rio D'ouro até que a sua luz deu lugar às várias luzes que abraçam o rio quando o céu escurece.

O Rio D'ouro é a divisa entre Vila Nova de Gaia e o Porto, Porto mesmo. Da margem de cá víamos em Gaia as caves de vinho com seus letreiros florescentes, os monumentos envoltos por auréolas e milhares de outros pontos luminosos que eram como estrelas baixas. Com tantos focos de luz pouco se notava as estrelas altas, mas ainda assim elas estavam lá a agraciar a noite como sempre estiveram.

É facil se deixar levar pelo brilho ds estrelas baixas, das mais próximas, ainda que as altas estejam à espera, aguardandando cintilantes o dia do encontro. Não tem mal. É mesmo assim. As pequenas estrelas continuarão a brilhar. Para que, quando as luzes baixas se apagarem, cada um possa, um dia, encontrar a sua.

"As estrelas são belas por causa de uma flor que não se vê..."
(O Pequeno Príncipe)

Sexto dia; 10/08

Provei o melhor croissant da minha vida em meio a um monte de adolescentes que participavam de uma espécie de colônia de férias na Residência Cerveri. Era um curso de inglês que havia ocupado andares do albergue para passar alguns dias do verão com os niños. Adorei!

Fomos logo cedo pras ruas em busca dos encantos da cidade. Agora tranquilamente, sem pressa, sem "ter que". Depois de cruzar o rio Onyar umas tantas vezes pela Ponte de Pedra e pela Ponde de Ferro do Eiffel conseguimos mapas e partimos pro passeio medieval. Pedras, pedras e mais pedras combinadas em muralhas, catedrais, ruelas estreitas, largos... às vezes a minha vista esfumaçava um pouco e eu via carruagens com damas de vestidos pomposos escondidas lá dentro, um principe a galopes, cavalheiros que exibiam suas armaduras lustradas... Esfregava os olhos e voltava a ver turistas e máquinas fotográficas no cenário dos meus sonhos.

Talvez por não ter criado nem uma fagulha de expectativa, Girona foi um lugar surpreendentemente adorável. É impressionante o que acontece quando não se faz na mente um filme do que ainda vai acontecer. As cenas se desenrolam tão naturalmente como nas mãos de um bom diretor.

À noite, com Alejandro de trilha sonora, de volta ao aeroporto, demos adios à mais recente campeã do mundial (diga-se de passagem, não havia resquícios de entusiasmos com a primeira vitória na copa).

Já quase havia esquecido o quanto era divertido estar com portugueses quando as luzes do avião se apagaram para o procedimento normal de decolagem noturna:

Senhora: - Logo vai se mudar a intensidade da luz. É só esperar um bocadinho que já vao pôr isto mais claro. Não vai ficar escuro assim.
Miúdo: - Aqui ou lá fora?

É bom ter portugueses para alegrar a viagem!


Quinto dia; 09/08

Dia de finalizar o roteiro de Barcelona: Arco do Triunfo, mais alguns dos lindos parques, Montjuic e arredores.

Lá por Montjuic tem muita coisa junta. Tem a Arena, o Museu Nacional, centros de convenções, mais acima tem o Pavilhão Olímpico, tem obras de grandes arquitetos, clássicas e contemporâneas, tem uma rotunda bonita e tem a Fonte Mágica! Não sou eu que digo, é a placa. Mas ainda que a placa não dissesse seria fácil chegar à essa conclusão. De tempos em tempos as águas da fonte dançam e subem aos céus. Aí parece que o céu, azul imenso, é extensão da fonte. Dá mesmo vontade de fazer um pedido. E eu fiz...

Mas era também dia de gelado sabor crema catalunya, de torta de santiago e bacalhau com feijão branco (infelizmente esquecí o nome do prato). Dia de arriscar mais palaBras espanholas, fazer as malas, deixar a casa como encontramos, devolver as chaves. Dia de respirar satisfeita estes ares até o último fôlego.

Nós suspiramos a despedida. O céu chorou a nossa partida. Depois de duas horas no ônibus para Girona descobrimos que... tchan tchan tchan tchan: o vôo foi transferido para o dia seguinte, por causa das lágrimas que caíam fortemente sobre o aeroporto (esta é a versão combinada, mas podem me perguntar pessoalmente a versão verídica). Que fazer nas 24 horas seguintes neste lugarzinho no meio do nada? Sucumbir a Murphy? Jamais!

Nem sempre eu sei o tal "porquê das coisas" mas incrivelmente elas têm acontecido em consonância ao meu pensamento. Na cabeça a idéia é fixa desde o início: esta será "A" viagem. Com dia a mais ou a menos em Barcelona. Dentro ou fora do planejado. O "como" e o "porque" são o de menos. Isso a gente vai vendo. Por hora o taxista nos deu a solução: Albergue no centro histórico de Girona. Pra lá nós fomos, já ao anoitecer, descansar no beliche do quarto 44 depois de alguns bolinhos de bacalhau e um vinho de boa noite na Praça da Independência.

Nada como contratempos e desvios de rota para dar mais emoção e graça à vida.

Quarto dia; 08/08

Impossível sobreviver ao dia de hoje sem café. Com esta demanda, no calor que faz aqui, um copão de mocha no starbucks nos serviu como uma luva (tipo um cappuccino gelado, quase um milk shake).

Lá fomos nós: Faculdade de Comunicação, Museu de Arte Contemporânea de Barcelona, Centro de Cultura Contemporânea de Barcelona, Parque Guell.

Bem na fente do MACBA e CCCB havia alguns muchachos a fazer manobras em bicicletinhas. Uma graça! Há destes por vários cantos daqui, bem como skatistas e praticantes de leparcu (aqueles que ficam pulando pelas paredes) - arte contemporânea!

Mas para além das piruetas sobre duas rodas, pedalar é parte fundamental da vida em Barcelona. A cidade é toda propícia para ciclistas. Rampas de acesso sempre! De poucas em poucas quadras há estações bicing. Uma excelente alternativa para o transporte público. Explicando bem resumidamente é assim: paga-se vinte e tantos euros por ano e pode se pegar e deixar as bicicletas bicing em qualquer uma das estações. Adorei!

Valtando ao roteiro... Como o nosso passeio em Barcelona tem um foco pré-definido, tivemos que deixar de ver as exposições em prol das casas do lúdico Parque Guell (ou "casas da história de João e Maria"). Para alguns pode ser estranho mas o leque de possibilidades que o artista dá à imaginação já o tornam merecedor da minha admiração. Saber que suas criações datam de mais de cem anos o elevam exponencialmente. Difícil encaixá-lo em algum estilo. É o mesmo que tentar encaixar (colocar em caixa mesmo) Chagall. Faz confusão. Eles foram diferentes do todo. Eles pensavam fora da caixa.

Na volta para casa percebi os cartazes alinhados nos postes que anunciavam o circuito de gays e lésbicas entre dois e oito de agosto. Estava explicada a variedade de tipos e casais bem à vontade nas ruas. O que nem tinha me causado tanta estranheza. Aqui, o ditado "ser diferente é normal" é uma bandeira erquida nas praças. A arquitetura do clássico ao mais "pra frentex", as roupas, os cabelos, a gente de cada canto do mundo, cada um na sua. Super normal! É bom ver na prática o que me disse a Zélia há uns tempos atrás: "Nem tudo que não é você é esquisito".

Amanhã é dia de dar tchau pra Barcelona mas posso continuar no mesmo verso da cantora: "Nem tudo que acaba aqui deixa de ser infinito."

Terceiro dia; 07/08

"Andei, andei, andei até encontrar."
(Coração Sertanejo - Chitãozinho e Xororó)


Dificimente um europeu se arrisca a roubar um beijo intenso de uma dama logo no dia em que se conhecem, mas ficar pelado pode! Vi alguns tantos rapazes "à balançar" alegremente pela praia, moças de peitinhos arrebitados e peitões siliconados, naturalistas a passear no calçadão à frente do restaurante onde provamos Paella (comida típica à base de arroz e frutos do mar). Rapazes, moças, senhoras e senhores. Super normal! Brasileiros do meu coração, tive que entrar na brincadeira. Se o sol do Porto me deixou de biquinie, o sol de Barcelona me pôs de top less nas areias medierrâneas. Amarradona!

Além de peladões, na praia vimos o Peixe, de Frank Gehry. A tal escultura é mesmo bonita quando o sol, ao bater, faz do metal trançado brilhar escamas cintilantes. Andamos até o Centro de Convenções. Andamos até o "pirulito" do Jean Novel. Andamos até a Sagrada Família.

Eternamente inacabada, a Sagrada Família é, sem sombra de dúvida, algo que se poderia contemplar durante dias! Logo se nota o degradê da parte mais antiga para a mais nova do santuário. Podem pôr aí uma diferença de cem anos entre algumas das pedras que forram o tão visitado monumento. Havia muita inspiração na concepção deste projeto. Muito à frente do seu tempo, é a ousadia de Gaudí é o que o consagra.

Andamos de volta para casa e sendo sábado tivemos apenas o tempo mínimo para descansar as bolhas dos pés na varanda alarajada, deixar a água gelada refrescar a pele avermelhada e cair na noite amarelada de Barcelona. Não sei se é só por ser verão mas Barcelona me remete a cores quentes. A noite amarela da barcelona está na luz e no cabelo dos turistas que superlotam La Rambla. Tentamos achar algo mais de pueblo, pero una calle sem turistas no verão é quase impossível.

A noite foi boa! Boa pra exercitar o inglês, aprender qualquer coisa em francês e até un poquito de espanhol (ou foi catalão?). Não é difícil encontar gente bacana para bater papo. Parece que todos estão à procura de uma convesinha intercultural mas foi como eu disse: Dificilmente um europeu se arrisca a roubar um beijo intenso de uma dama logo no dia em que se conhecem, mas ficar pelado pode!

Segundo dia; 06/08

As poltronas do ônibus que nos levou de Girona para Barcelona eram mais confortáveis que as do avião da Ryanair. Fecha o olho, abre, afunda ao corpo procurando uma posição mais agradável, espiadelas pela janela, estica a perna, dobra, vira pra um lado, pro outro e finalmente chegamos à cidade catalã de destino.

Fomos até o escritório do Josh pegar as chaves do apartamento e eu torcendo para que tivessemos a honra de um prédio à imagem dos que ví pelo caminho. Pequenas sacadinhas que abrigam compridas portas emolduradas das construções de cinco ou talvez sete andares, algumas delas por bom gosto floridas. Felizmente o nosso edifício é tal e qual. Ainda ganhamos de presente um terraço abraçado por vasos de plantas onde o pôr do sol enche de vermelho alaranjado o coração da gente no final da tarde.

Mas a tarde ainda estava no começo quando deixamos as bolsas e fomos visitar Gaudí, ou "as casas da pequena sereia", andando, é claro, para apreciar a cidade. Por sorte a nossa localização é excelente, nem muito atrás nem muito na frente, e em alguns minutos estávamos a bater perna no Paseo de Gracia até a Casa Batlló e La Pedrera. De lá, algumas praças, alguns tapas (aperitivos), mercado, casa, cama.

El Rio de Janeiro es mucho bonito pero Barcelona es muy muy... no lo sé! Só sei que sairei de cá querendo ser mais turista no Rio. Tirar mais dias para apreciá-lo, olhar calmamente os prédios, os jardins, as praças, as praias, as ruas, a minha cidade... dar-me mais tempo para me encantar com ela. É bem verdade o que lí outro dia, que "a verdadeira afeição na longa ausência se prova" (Camões). Meu afetos tomaram tamanha dimensão que não me admiro se explodirem de tanto que incharam.

Como "tudo neste mundo tem o seu tempo; cada coisa tem a sua ocasião" (Ecl. 3:1), esta noite foi tempo de descansar para dar continuidade ao longo roteiro arquitetônico que foi preparado para o dia seguinte. Depois de aproveitar o céu do entardecer da varanda, chapei na cama e tive bons sonhos.

Primeiro dia; 05/08

"Eu nem dormi direito
isso não é defeito
até aproveito mais."

(Falamansa)


"Dormir é para os fracos." Foi a frase da minha querida irmã. Pois então: FORÇA!

Depois de abraçá-la apertado, pular, compartilhar sorrisos, dar risadas e beber em tacinhas de plástico um vinho tinto frisante na estação de Campanhã, fomos à uma ceia portuguesa com certeza, preparada pela Maria: pão rústico, bacalhau crú com alho e azeite, bacalhau com natas, aleteria, doce de figos e vinho verde frisante... chego a salivar de lembrar o gosto.

Depois de bem saciar a fome fomos ao maior outlet da Europa, lá no fim do mundo, onde chamam Vila do Conde. Bem no meio do nada para os europeus gastarem mais dinheuro com a nova coleção nas lojas da cidade.

Continuamos por programas mais locais e menos turisticos. Para viver o Porto, vivamos como o povo do Porto, pois não? Na zona da praça o nosso primeiro drink da noite: Caipirão (caipirinha com Licor Beirão). Super aprovado! Passamos para as Galerias. Lá fomos de fino mesmo (fino é chop). No Piolho, sítio (lugar) estudantil tinha que ter nome assim, continuamos a experimentar bebidas nativas: shot de Ginginha. É feito de ginja, que nem o gajo que nos serviu sabia o que era, quanto mais eu. Depois de mais alguns finos brincávamos de escravos de jó com os copos (cheios) sentados no jardim a cantar Chiclete com Banana e Xutos e Pontapés com os tugas que amavelmente nos levaram para conhecer a noite do Porto e sabiam mais axés que eu.


Em algum momento me perdi no tempo. O que foram estes (quase) seis meses? Ora parece que foi uma piscadela de olhos, ora um sono mais ou menos longo. Já posso sentir todo o meu tempo do lado de cá do oceano como uma pequena pausa no meu cotidiano. Um retiro de crescimento pessoal. E foram tantas emoções (acompanho o rei na risada, hehehe) que se chorei ou se sorrí nem importa tanto. Valeu a pena, no strictu sensu, cada momento.

De volta no tempo e de volta à morada em Moreira da Maia. Dormir? Pra quê? Um cochilo de duas horas foi o máximo para não chegarmos atrasadas ao aeroporto. Destino: Barcelona! Mas aí já é outro dia.

terça-feira, 3 de agosto de 2010

Dizem que o amor atrai...


Obrigada por todas as histórias de amor que me têm sido contadas. Delas vieram outras mais. Já agora transborda uma nova. Não que eu tenha deixado de lado meu amor pela menina dos olhos de Portugal, a querida Coimbra, mas agora me vejo envolvida por um senhor de idade, e muita... com o Porto. Neste últimos dias ele tem feito charminho pra mim. Tem cantado fados e feito de tudo para me conquistar. E ele é bom nisso. Tão bom que me despiu! O sol do porto me pôs dias seguidos de biquinie na praia, coisa que o sol do Rio não conseguia há tempos.


As construções erquidas em pedra seculares, os painéis de azulejos desenhados, as ruelas estreitas, o brilho do fim da tarde refletido no rio D'ouro, os pássaros que dançam e cantam à certa hora do entardecer sobre a Ribeira, os castelos (de verdade, onde moraram reis e rainhas!), os quintais com parreiras retorcidas já cheias de futuros vinhos, as praias rochosas, tudo me leva a encontros românticos.


Foi mesmo assim: Quis me alimentar de histórias de amor e a cada dia me são servidos banquetes. Enchi meus ouvidos de forró durante semanas e lá estava eu a gastar a sandália no Favela Chique na última sexta-feira como um carrossel. Liguei em busca de uma voz amiga e consegui quatro de uma vez só pra melhorar o meu humor. Sonhei com abraços dos meus cariocas e hoje mesmo, quando "por acaso" estava a tentar achar a dona de uma carta de motorista que "por acaso" foi parar nas minhas mãos, ganhei de presente um abraço apertado e uma tarde a perambular com um amigo querido que trabalhou comigo no CCBB, no Rio, e que "por acaso" estava a passar na rua das galerias de arte ao mesmo que eu quando ia em busca da morada da rapariga dona da carta. Não achei a dona, mas achei Léo e, se calhar, era mesmo para isso que a carta servia.


Amo muito tudo isso e incrivelmente tudo isso bateu então à minha porta. Felizmente ouvi as batidas como se ouvisse música e cantei com elas. Felizmente eu as quis e por isso elas vieram. Ó pá, dizem por aí que o amor atrai, pois não? Tenho acreditado nisso cada vez mais, como sempre acreditei há tempos atraz. Essa minha crença só andou meio engavetada talvez, com uma abertura de soslaio. Agora, quanto mais se abre a gaveta, quanto mais ela se enche, mais espaço parece que tem. Como na bolsa da Mary Poppins. Com espaço que nunca acaba. Foi meu parente distante que disse "Tudo na vida tem o estigma da caducidade. Só amar não acaba". Que bom que a gaveta suporta essa infinitude.

Foto 1: entardecer na Ribeira
Foto 2: praia de Matosinhos
Foto 3: Castelo de Guimarães
Foto 4: Estação de São Bento

domingo, 25 de julho de 2010

Não acaba nem tira férias.

"Amar até, amar até, até quando Deus quiser..."


Era uma vez uma menina que bebia demais...
Assim começa uma das histórias que me contaram. Quem contou não viu, mas escaparam sorrisos com covinha do meu rosto. Um início pouco tradicional mas assim já começaram alguns tantos contos, sagas, epopéias e historietas românticas.

Me contaram porque ando a cata de histórias de amor. Tenho me alimentado delas. Elas estão por toda parte: nos fados, nas músicas de Xutos e Pontapés e de Maria Clementina, na memória dos que se apaixonaram, nos livros. Não passo fome.

Comprei um livro de um distante parente português. Chama-se Frederico Lourenço. Se um dia escreverem um livro lembrem-se que ainda que o ditado popular nos ensine o contrário, julga-se o livro pela capa. Foi ela que me atraiu. Discreta e pálida, de cartão flexível e macio. No topo o nome do autor, ao pé "livros cotovia" com letras menores e um passarinho azul (ví logo que era aquele que conta as coisas que não se sabe quem contou). Entre o topo e o pé, um pouco mais acima do meio, em letras grandes e azuis: Amar não acaba. Deixo em aberto o que corre pelas páginas do livro em prol do exercício da imaginação.

Um dia desses estava a toa no trabalho a passar os canais quando ví em Hollywood o título "O amor não tira férias". Mais uma vez a imaginação veio à tona porque milagrosamente o restaurante encheu e não consegui ver nada do filme enquanto sorria para os clientes.

Juntando as coisas cheguei à conclusão imaginária de que "amar não acaba nem tira férias". Entretanto, aconteceu que uma das belas história que me contaram depois carregava consigo um suspiro final: "Lindo, né? Pena que a vida não é toda assim." Eu quis muito mas não soube dizer o que acontece com amar quando parece que amar não está. Daí eu disse apenas: " Bem... depois você comenta esse texto." (Este mesmo. É que eu estava escrevendo enquanto me contavam).

Não foi a resposta merecida mas nem sempre eu tenho as palavras que gostaria. Quem sabe, algum de vocês que passam por aqui as tenham. Se tiverem me dêem este presente. Se não, me dêem ao menos um história para o pequeno almoço.


http://www.nletras.net/maria-clementina-veio-a-maria-clementina/

P.S.: Pequeno almoço é como chamam café da manhã aqui.
Foto de Angela M. Lourenço

sábado, 17 de julho de 2010

Percebes?

"I say high, you say low
You say why
And I say I don't know
Oh, no
You say goodbye
and I say hello
Hello, hello..."


Como todos os dias, acordei cedo. Acordei até mais cedo que o de costume mas ainda assim tive que correr pra não perder o autocarro. No autocarro descobri que o meu cartão de passe não funciona na paragem mais próxima da minha casa. Vejam bem, eu expliquei pra rapariga que fez o meu cartão que eu queria ir todos os dias das Guardeiras à Matosinhos e paguei pelas respectivas zonas, como manda a boa conduta. Mas, segundo o motorista, eu teria que andar até a próxima paragem, aí sim, tomar o bonde. Teria. Mas se eu demorar dois minutinhos procurando o cartão na bolsa, já dentro do veículo, não tenho. É o tempo de chegar na próxima paragem e pronto. Jeitinho brasileiro? "É sinsinhôra"! Mas também os portugueses inventam cada uma!

A lingua é a mesma em teoria mas na prática eu tenho as minhas dúvidas. Existe um vão na comunicação para além do meu vão entendimento. Se camisola se usa em tempo frio, durex é preservatio e quando ofereço refrigerante os miúdos perguntam-me "tem picas?", concordam comigo que as diferenças linguísticas causam, no mínimo, ruídos na comunicação?

Talvez não seja novidade o próximo caso porque já contei para algumas pessoas, mas numa das noitadas de Coimbra aconteceu assim:
A fome bateu avassaladora no meio da pista de dança da Associção Acadêmica. Fomos à Praça da República comer uma sandes ( o nome que dão para sanduiche aqui, e não é gíria). O diálogo foi o seguinte:
- Boa noite. Quanto custa? (apontando pro lado onde tinha um grande variedade de sandes)
- Dois euros.
- Todos eles?
- Não senhora, cada um.
Será que estavamos com tanta cara de fome pro gajo achar mesmo que queriamos os 20 sanduiches da montra (vitrine)?
Há momentos em que eu até entendo a razão da literalidade e clareza de cá. Até faz algum sentido, mas a verdade é que brasileiro aprende na vida, às vezes na marra, a ser bom entendor: meia palavra basta. Já aqui pra cada palavra tem de se dizer uma e meia... Ó pá, fógo! E ai de tí que não percebas! Vejam só a coitada da Anabela (podem clicar que o link é confiável):

http://www.youtube.com/watch?v=hIrRNFa8OiA&feature=PlayList&p=4645E17F5561CD2C&playnext_from=PL&playnext=1&index=102

P.S.1: Créditos o Saturato por me apresentar Anabela.
P.S.2: Hoje falta exatamente um mês. \o/

terça-feira, 13 de julho de 2010

Um é pouco, dois é bom, três dá samba!


Foi isso que disse o italiano amigo do pizzaiolo da Di Legna: "Trabalhar com um brasileiro é bom, com dois é melhor ainda, mas com três dá samba." E dá mesmo! Consegui um trabalho temporário como empregada de mesa, balcão, atendente de telefone e caixa, além de "passar um paninho" nas coisas porque, segundo o chefe, não custa nada. Até seria demais se fosse em outro lugar mas lá na sobra tempo e brasileiro com tempo de sobra faz o que? Samba! Os dias correm com os gajos cantarolando grandes clássicos.

No meu primeiro dia de trabalho saí direto pra um club com música brasileira ao vivo de altíssima qualidade, mais mpb. No segundo não faltou vontade mas faltou companhia pro samba que rola aqui mesmo, em Matosinhos, no "Blá blá" ou no "Vicio da Carne". Nao é um "Samba do Ouvidor" ou um "Beco do Rato", mas vale...

A Di Legna fica a poucos minutos da praia de Matosinhos. Isso me deixa em uma situação no mínimo agradável e me concede bons momentos como, por exemplo, o de agora: eu e meu zézinho (meu branquinho perolado da acer), de frente pro mar, à sombra de uma árvore, deitados na canga estendida sobre a grama a ouvir o barulho das ondas, músicas de Chico Buarque e o som das pessoas que perambulam por aqui a aproveitar a tarde de sol.

Só de pensar que meus intervalos vão passar assim alguns dias, noutros serão num café a tomar chocolate quente e escrever um pouquinho sobre minhas divagações ou ainda de algum outro jeito delicioso que dá pra se inventar, já consigo ter ânimo de acordar cedo pra vir pra cá. Até porque não será por muito tempo essa brincadeira. Dura mais uns 2o dias no máximo e eu não quero perder nem sequer um deles. Pois é, está quase no fim.

Estive aqui a pensar, hoje mesmo, no jargão que diz: "No final tudo acaba bem. Se não está bem é porque ainda não é o final". Pois o final está a me fazer timidas cócegas! Só pra lembrar, faltam 23 dias pra abraçar a minha irmã, 36 pra pisar em solo carioca, 38 para o meu próximo fim de semana na Lapa, 40 para comer pastel da feira e feijão-com-tudo-dentro da mamãe, entre outras coisas que estão agendadas no meu coração.
Enfim, enquanto não chega o tão esperado dia, aproveito tudo que o final tem pra me oferecer, na arquitetura antiga que dá charme às ruas, no sotaque português que me faz rir, no sotaque brasileiro que faz sorrir, na água gelada do mar que refresca as tardes de sol na praia, nas surpresas que mudam o rumo das coisas, em tudo que não cabe nessas palavras... Até a última gota!

P.S.: Que rumo dessa prosa... o final nem parece que é do mesmo post que o começo. Acho que foi o mar que deu um caixote nas minhas idéias.

domingo, 11 de julho de 2010

Será tudo passageiro?


Dizem que mãe sempre sabe. Diz minha mãe que "quem não escuta conselho escuta 'oh, coitado'", que "quem a sua boa cama faz, nela se deita", que quando eu ia com as castanhas ela já vinha com os cajús e, com aquela habilidade incrível de contar piadas, que "na vida tudo é passageiro - menos o trocador e o motorista." Pois bem, pra começar eu nunca entendi a real importância dos motoristas de metrô. Penso que eles devem levar umas revistas pra cabine, uns salgadinhos, e aquele fone enorme que às vezes os vejo usando deve tocar mó sonzão ou ainda um mantra pra medidar de uma estação à outra. Pra mim, o cérebro eletrônico será, fácil fácil, o futuro condutor de metrô. Descartada aí a parte "motorista" da vida.

Também os tempos de trocador já se esvairam. Cá no Porto é assim: compra-se o bilhete "andante", que é de papel e recarregável, em um terminal eletrônico que há em todas as estações de metro (que se diz métro). No terminal há uma lista com todas as paragens e a respectiva equivalência como zona ( Z2, Z3, Z4, e assim por diante). Quanto mais distante a zona, mais caro é para carregar o bilhete, que serve tanto para autocarros quanto pra metro. Em teoria, é obrigatório validar o bilhete numa caixinha amarela fincada no espaço sempre que for utilizar o transporte. Ele é válido por uma hora para tomar quantos veículos for necessário. Na prática: bilhete comprado e validado segundo a moral de cada um.

Perguntem-me lá: será que alguém pode burlar as regras? Mas é claro! Podem até entrar no metro sem despender um tostão. O acesso é livre! Ou ainda: podem comprar um bilhete para Z2, o mais bartinho, validar para que os outros passageiros não te olhem torto e ir até Z200 (se existisse) sem validá-lo novamente. Digo sem pestanejar que muitos brasileiros encontrariam ainda outros mil modos muito criativos para dar um jeitinho de não pagar as passagens. O problema aqui é quando um fiscal surpesa, que as vezes surge dentro dos veículos com uma maquininha-checa-conduta, pega algum sujeito-mané no flagra. Além da vergonha, são € 70,00 de multa.

Parece que por aqui este sistema está a correr bem. Já agora não me é dificil ver tudo por aqui como passageiro. Mas pergunto a vocês: Será que no Brasil será tudo passageiro? Me parecia algo fora de cogitação mas já me engnei tantas vezes. Seria só mais uma.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Foi. Fim.


Foi, pelo menos, uma ótima oportunidade de ficar junto do meu povo. Ainda que timidamente agrupados, como no "amistoso" contra Portugal, os brasileiros estavam sempre presentes. O primeiro jogo, ainda em Coimbra, foi de torcida quase unanime nos jardins da Associação Acadêmica. Em Brasil x Coréia, o resultado fez rolar roda de samba e torcedores pelo gramado às cambalhotas. Neste dia minhas malas já estavam prontas e eu já me preparava para dar tchau a Coimbra e olá ao Porto. Estar ao lado das queridas meninas do Recife, do Sul, de Minas, das cariocas e todos os outros foi mais valioso que o placar final em sí. Não esquecendo que o gostinho da vitória dá um tempero especial à diversão! Foi mais uma das boas despedidas de Coimbra. Sinto até que parti de lá em boa hora. Antes que todos já tivessem ido embora. Antes que a Residência Pedro Nunes virasse só saudade.

No segundo jogo eu já estava a respirar novos ares lusitanos. No Porto, assisti a partida no conforto do sofá com direito a skol (o que é quase refresco em comparação à super bock ou sagres) e uma caipirinha meio torta (com açúcar amarelo). Para comemorar o resultado de Brasil x Costa do Marfim fomos perambular com os nossos meiões verde e amarelo até parar no Café Paris: belíssimo! Com vitrines de quatro ou cinco metros de altura que ocupavam as paredes do chão ao teto cheias de cacarecos e quinquilharias antigas, do jeitinho que eu gosto. A luz era quase que só a das velas às mesas. Havia um rapaz que de tempos em tempos fazia o piano chorar ou bossanovar e eu, é claro, aplaudir sem fazer muito som, só para mostrá-lo o meu apreço! Terminamos a noite ainda a dançar forró, samba, ou quase isso, e pular ao som baiano com uns tugas que têm a metade do coração brasileiro, por sorte são pilotos e quando dá na telha vão fanfarrear atraz do trio.

Em Brasil x Portugal fomos a la praia de Matosinhos. E não é que por aqui dá mesmo praia! Pintou muita gente de trajes de banho a tostar nas areias e se refrescar no mar gelado. Alguns gatos pingados verde-amarelos foram também para o meio da portugaiada de camisola (que aqui significa blusa de manga comprida) ver aquele joguinho de comadres. Não entendo até agora porque os nativos de cá não paravam de aplaudir e soprar suas vuvuzelas (tipo cornetas de plástico e som grave). Tanto barulho por causa de uma não derrota? Mas foi engraçadinho ouvi-los torcer. Algo como "ó pá, fógo, foudass...".

O rio Douro foi o cenário de Brasil x Chile. Na ribeira havia apenas um chileninho (não é chinelinho) a sofrer no meio da massa brasileira que vibrava a cada gol. Este jogo pedia como trilha sonora Benjor cantando: Só não entramos com bola e tudo por humildade. Foi uma belezura. No fim do jogo, alguns canadenses e outros brasilieros residentes na Inglaterra já haviam se agregado a nossa mesa para compartilhar as alegrias do resultado.


Achava eu que assistir o jogo à beira do Douro traria sorte novamente... ledo engano. Pra começar não sei de onde surgiu tanto holandês. Estavam lá bem menos exibidos que os brasileiros mas foram eles que roubaram a cena e dançaram o vira já que os portugueses falharam na tentativa. Daí: Fim. Pelo menos para mim. Depois me contem qual a seleção campeã de 2010.


Mas daqui a 4 anos a história vai ser outra eu estarei lá, ou melhor, aí.


Foto 1: Dia de jogo no Jardim da A.A.C.
Foto 2 e 3: Café Paris
Foto 4: Chileninho
Foto 5: Ribeira em dia de jogo

terça-feira, 29 de junho de 2010

Se a Analha não quiser ir eu vou só!

"As aves que aqui gojeiam, não gorjeiam como lá."

Portugal conquistou o Brasil? Pra você ver como são os rumos da história... Se estivessem cá concordariam comigo sem sombra de dúvidas: Brasil conquistou Portugal! Eles nos adoram! Até mesmo a estupidez esporádica, propria dos lusos, é pura manifestação exacerbada da vontade que têm da gente verde e amarela! É que cá eles nos querem todos e em tudo. Querem nossa seleção pra continuar a torcer na Copa. Querem nossa alegria pra cortar a resmunguice. A nossa cachaça e o nosso limão verde (que aqui chamam lima) pra fazer caipirinha. E querem a nossa música. A voz, a melodia, a poesia brasileira ritmada.

Imaginem a minha sensação quando às voltas com uns tugas ouço um extenso repertório de Chiclete com Banana com direito a "joga a mão pro alto", "sai do chão" e "vai vai"! Os gajos por pouco não me mostraram uma tatuagem de camaleão no peito! Caetano Veloso, Maria Betânia, Martinho da Vila, Adriana Calcanhoto, Marcelo D2, O Rappa, Natiruts, Carlos Malta... isso é só uma palinha do que tem rolado de show pelo Porto, Lisboa e adjacências nos últimos dias.

Estou convencida de que uma das apresentação foi mesmo um presente para mim. Não era Circo Voador nem Fundição Progresso mas eram elas e isso é o que importa! Céu & Roberta Sá na Casa da Música. Pra quem nao sabe, meu último show em solo carioca foi na Fundição, da Roberta. Se quiserem ter idéia do que foi há fotos minhas pingando de tanto suar no orkut. Além disso, saí do Rio numa onda de Céu e perdi o show dela no Circo. Quando soube que as duas estariam juntas tão pertinho de mim tratei de ir "a cata" de companhia para minha noite mpb. Sem sucesso na minha busca eu fui só, mas fui.
"Eu vou pra maracangalha eu vou...
se a Analha não quiser ir eu vou só
Sem Analha mas eu vou!"

Evidente que nao fiquei só. No final do show da Céu, já inquieta por ter minhas cadeiras presas à confortável cadeira da elegante sala de concertos permaneci de pé durante a última música com mais alguns brasileiros que já não aguentavam mais danças de ombrinho. Durante o intervalo os corações já batucavam de expectativas: tinha que dar samba! Logo na segunda música a moça do vestido vermelho fez, saltar da cadeira a parte mais animada da plateia, e isso, é claro, me inclui. Em pouco tempo já havia uma quantidade considerável de bons "sambadores" ao longo das paredes laterais. Acreditem ou não havia até algumas portuguesas que deixariam muitas brasileiras no chinelo.
.
"O nosso jogo é perigoso, menina.
Nós somos fogo e gasolina."
.
Foram mesmo dois show fabulosos com direito a participação de Carlos Malta e fado num dueto de Antônio Zambujo com Roberta.

No fim das contas os mais saidinhos foram parar entre o palco e a primeira fila: umas 15 cabeças que não paravam de dançar, rodar e se deliciar. Ela retribuia nossos sorrisos cantando a um metro de distância deles. Os meus olhos brilhavam, ela os viu e agradeceu com um show que me fez suar num tubinho preto e gastar a sola dos meus sapatos de bolinha. A saia rodada e a sandália me fizeram falta.

"Agora é hora de vibrar,
Mais um romance tem remédio.
Vou viajar, lá longe tem
O coração de mais alguém.
Não deixe idéia de não ou talvez
Que talvez atrapalha."
Foto 1: Sala Suggia, Casa da Música
Foto 2 e 3: Céu e Roberta Sá neste show.

sábado, 19 de junho de 2010

Um amor em cada Porto.

Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exatos
Basta para podermos achar
A vida leve.
(Fernando Pessoa)

Lá pela terceira ou quarta vez que dei tchau pra Coimbra meu coração não estava mais tão apertado. Talvez seja por isso que os portugueses se dispedem incessantemente. As palavras de adeus ao telefone são algo assim: Vá, vá, beijinhos, vá, beijinhos, vá vá, beijinhos beijinhos, vá... E já houve casos em que eu mesma ouvi a Júlia, supervisora portuguesa da nossa residência, se despedir cinco vezes e puxar novos assuntos até a extensa despedida final. Talvez esse monte de tchau seja pra desamarrar o nó do coração. Dá pra entender. Quando não se dá tchau o nó fica mais apertado mesmo.
Pois cá estou agora, no Porto. Algo muito diferente dantes. Algo tão encantador quanto, apesar de "dífrennt" (esboço da pronuncia de Portugal). É possivel que mais um amor conquiste espaço em breve. É muito provável que o charme do Porto se acomode no meu coração junto à Cidade Maravilhosa e a Menina dos Olhos de Portugal. Veremos.


No meu primeiro dia fiquei a respirar os ares de dentro da nova morada mesmo, para acostumar os pulmões. Já no segundo fui bater perna. Chegando à Casa da Música soube logo que passaria um bom bocado de tempo alí. Um mar de miúdos inundava as escadarias da arquitetura prateada dos interiores da Casa. É claro que dei um jeito de conhecer um pouquinho do trabalho educativo. Além de uma visita com as crianças pelo espaço, assisti também a um workshop sobre o Sr. Mozart embalado pelo educador Paulo (que merece reconhecimento), pela Pequena Serenata Noturna e outras belas composições. Foi mesmo um lindo trabalho.

No mesmo dia, panfletos, placas, e lembranças de Encantos e Contos no CCBB me levaram a Casa da Animação. Está em cartaz uma exposição do processo todinho de feitura da adaptação de um conto do João do Rio, "O Homem da Cabeça de Papelão", conto que vale conhecer. Quando o sol começou a pensar em se pôr, lá pelas 20:00h, estive a rodear o Palácio de Cristal, passear pelos seus jardins. Há uma pontezinha que conduz a uma porção de terra firme no coração do pequeno lago. Há um Museu Romântico que infelizmente já estava fechado e o máximo que pude fazer foi tentar espreitar por cima do muro sem muito sucesso. Havia pavões passeando ao meu lado, patinhos e outras aves. Havia uma vista linda do Rio D'ouro por entre as brechas das árvores. E havia flores.

Na sexta feira, último dia do ano letivo da escolinha de Vila das Aves, finalmente cheguei à Ponte. Em nada a Escola da Ponte me desapontou. É tão incrível ou mais até do que eu imaginava. A simplicidade, a naturalidade com que ela se impõe como nada de extraordinário ou superior seduziu-me ainda mais. A Vila em si, que abriga a escola, é também um graça. Lugarzinho sossegado com casinhas-do-meio-do-nada, paredes de pedra, hortas, parreiras retocidas que constroem tetos nos quitais, rios que se beijam e flores, ai ai, as flores. Algumas vezes meus olhinhos chegavam verdadeiramente a brilhar. Mas a modernidade chega mesmo lá e há também grandes casarões e até um prédio no centro da Vila.

Ainda na sexta foi meu primeiro dia na noite do Porto. Bella Cruz é uma discoteca tipo high socity à beira mar. Não é muito meu gênero mas com nome na lista, não custa nada, pois não?

No sábado a Katy veio e Ana, minha anfitriã, nos levou a um bar mais estudantil, o Piolho. Não é necessário declarar maior simpatia por este que pela discoteca da noite passada, é?

Ontem foi dia de tomar vinho do Porto, comer cozido de bacalhau que a Maria fez, pão, alho, azeite, e foi dia de jogo, mas os jogos merecem um post a parte.

Ainda dava para me estender umas 30 linhas só sobre as pessoas bacanas que tenho conhecido, algumas miudezas dos lugares por onde andei, e a leveza dos últimos dias. Mas acho que já há linhas mais que suficientes.

Só pra lembrar, estou a menos de dois meses da Cadade Maravilhosa. Organizem suas agendas.

Foto 1: Escadas do Casa da Música (Não fica mais bonito com crianças? Imaginem só.)
Foto 2: Pôr do sol no jardim do Palácio de Cristal

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Era uma vez, um Caleb, português.



Fui ao mercado comprar nesperas há pouco. Não tinha. Parece que não é época. É que hoje meu velho faz anos. Completa quase meio século de vida. Quis comer uma nespera em homenagem à ele.

O Caleb, português, a quem muitos conhecem por Vitor, teve uma das oportunidades mais divertidas que se pode ter: Escolher um novo nome. Cá em Portugal a gente brinca disso às vezes: Joana Júlia, Maria Carolina, Filipa Cristina... Ele escolheu Caleb. E foi numa empreitada luso-americana que nasceu Polyana, carioca de coração, rapariga portuguesa de herança.

Chegou magrinho, noviço, em terras brasileiras. Nada de barrigão no gajo, parece que essa característica se desenvolve com o tempo. Mas o bigode... esse era genuíno, farto, do tamanho dos ideais que inundavam seu coração. E aqueles olhos verdes... os portugueses têm um certo charme no olhar, algo meio sério, qualquer coisa de descobridores, desbravadores. Décadas depois, ele continua lindo!

De volta às nesperas, não me lembro de tê-las comido nessa vida. Me lembro é das histórias de meu pai, que subia nas árvores do quintal do vizinho para pegar as tais frutinhas amarelas. Por aqui pego limão no pé, tangerina e hj mesmo peguei umas frutinhas quase ameixas, mas vermelhas por dentro, talvez sejam ameixas selvagens, sabe lá. Pego assim, na rua. Não preciso pular muro. Quem sabe em Dafundo, Liboa, terra das peripércia infantis do Sr. Lourenço, eu encontro algum quintal cheio de nesperas suculentas, esperando para serem arrancadas, deliciadas, de molecagem. Deus queira que o muro seja baixo!


Ao meu pai, a alegria de um miúdo traquinas, o peito aberto da juventude que se entega pelo que acredita, "todo o amor que houver nessa vida e algum trocado pra dar garatia"!


Foto 1: Nesperas
Foto 2: Nespereira de quintal

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sobre promoções e velhinhos.


Já dei tchau pro voluntariado no Museu da Ciência. Doeu. Ainda assim sorri. Carreguei comigo a lembrança de miúdos quase prodígios, o riso eterno quado ouvir falar sobre as árvores graças a internacionalização de que as "arveres somos nozes", revi minha descrença no darwinismo, conheci pessoas boas no que fazem, encontrei um belo tema para minha monografia. Por só isso e por tantas outras maravilhosas coisas que fizeram este estágio muito precioso, sorri.

Já encerrei minhas aulas e exames. Falta dar ou meu professor de barba bem aparada algumas palavras sobre Fernando Pessoa que ainda nem comecei a escrever. Graças a internet posso enviar estes pormenores mais tarde, do Porto. É que vou pra lá em alguns dias. Tchau pra U.C. e em breve, tchau pra Coimbra. Ai ai...

Por enquanto ainda tenho aqueles afazeres pendentes de sempre e tenho as promoções. É sobre elas que eu quero falar. Será possivel dizer que não é algo na minha "área"? Basicamente ofereço argumentos que convençam o cliente a levar meu produto. Por vezes tem degustação. Por vezes não. Às vezes o produto é mesmo bom e as vezes... bem... Penso que tocar alguem através de sorriso e bons argumentos se encaixa bem na minha área.

Uma das promoções foi da Fanta Zero. Em pleno final de semana da "Queima" o que menos se procurava no mercado era por refrigerantes. Eu oferecia. "Não me apetece" pra lá, cabeças balançando negativamente e"Brigadissima" pra cá. Em meio a monotonia dia foram os velhinhos que fizeram a minha alegria naquele mercado.

O pimeiro, de paletó xadrez, boina, bengala, camisa, gravata, suéter, sandália com meia. O diálogo foi o seguinte:

- Que ofereces?
- Fanta zero.
- Conhaque?
- Não, Fanta zero.
- Ah. Não bebo.

Os velinhos de Coimbra são bem esteriotipados. Não há velhinho que se preze e não use boina. As senhoras com seus casacos pretos de lã ou malha grossa, cabelos braquinhos, broches, fivelas na cabeça, também honram seu estatuto de velhinhas. Comumente faltam-lhes dentes (e acreditem, até em alguns jovens).

Então veio o segundo, passo lento, como se caminhasse num parque a admirar as folhagens e o movimento dos traseuntes:

- Boa tarde! O senhor já conhece Fanta Zero? Gostaria de experimentar?
- Não, não conheço mas é que não me apetece beber nada agora. Hehehe. É que estou a procura da minha mulher que anda cá com o carrinho mas não sei onte ela tá. Não a vejo, hehehe, é pequenina, hehehe.

Impossivel não rir junto com a risadinha pueril daquele senhorzinho de, pá, uns setenta anos.

Veio ainda um terceiro que desencadeou uma conversa, no minimo, interessante:

- Antigamente tudo era natural. Antes de você nascer. O que não era, era proíbido.

Sorrí. Ele continou:

- Tudo que é natural faz bem, seja o que for. Mas hoje há muito açúcar, faz mal.

Para mim, nesta parte, ele não falava da fanta. Falava da Vida. Mesmo assim, não era o caso de analogias filosóficas e por isso continuei o meu trabalho:

- Mas esta fanta não tem açúcar. É zero.
- Você não tem nada a ver com isso mas a pior coisa que se pode beber é zero, é ligth. Você não tem nada a ver com isso, tás a ver? Tás a fazer o seu trabalho.

É a voz da experiência: "a pior coisa que se pode beber é zero, é ligth". Insisto! Ele falava mesmo da vida.

Teve piada (nosso "teve graça") trabalhar no final de semana da "Queima". Tenho mesmo muita sorte de sempre trabalhar em coisas agradáveis. Mas é como dizem:
"Não há trabalho ruin, o ruin é TER QUE trabalhar"
(Seu Madruga)

quinta-feira, 27 de maio de 2010

Força!


"Moça, olha só, o que eu te escrevi:
É preciso força pra sonhar e perceber
que a estrada vai além do que se vê"
(Além do que se vê - Los Hermanos)

Outro dia um cavalheiro abriu a porta de vidro da Faculdade de Matemática para eu passar. Quando agradeci, ele me olhou nos olhos e disse "força!", com naturalidade e sorriso bem próprios das pessoas gentis.

Numa segunda ou quarta-feira dessas, me ofereci para ler um trecho do Livro do Desassossego quando o professor de barba grisalha, bem aparada, pediu um voluntário. Antes que eu começasse a série irônica de Bernardo Soares ele disse "força!" e voltou logo o olhar para a folha de papel xerocado com as palavras que já já eu iria declamar para a turma.

Num almoço de algumas semanas atrás, na cantina da sereia (ou foi na das medicinas?), esqueci de pegar a colher de sopa. Voltei e pedi licença, no meio da fila, para esticar o braço e alcançar os talheres. A menina que abriu brecha para mim sorriu e: "força!" mais uma vez.

Cá na 'terrinha', quando se diz "força!" (o ponto de exclamação é nota minha) é algo como "vá em frente!". Esses portugueses... são mesmo muito literais. Como já cantava o Camelo, é mesmo preciso força pra ir em frente, pois não?


Foto1: Cantina da Sereia.
Foto 2: Aula de Estudos Pessoanos I. Dr. José, de barba grisalha, bem aparada, ao fundo.

P.S.: "Pois não?" = "Não é?"

sexta-feira, 14 de maio de 2010

Comida, bebida, diversão e arte!


Em torno destas quatro necessidades vitais vão se estender as minhas delongas sobre a Queima.

A parte da diversão não precisa ser esclarecida. Muito menos a da bebida. Vocês entenderão facilmente. Quanto à comida, bem, Coimbra pára mas a minha vida não e como não se vive sem comer e quem não trabalha não come, trabalhei. Muito. Tanto no museu quanto com promoção e isso também entra nos posts seguintes.

A arte! Que seria de mim sem ela? Nas vésperas da Queima fui ao Museu Machado de Castro assistir Heráclito. Uma dessas tragédias gregas em que um deus resolve acabar com a vida de um mortal. Este Museu abriga um pórtico do século I, com aquelas passagens arqueadas e paredes de pedregulhos que remetem a trocentos anos atrás. Ainda que o espetáculo tenha sido no pátio externo e não na velha construção, a apresentação ao ar livre não foi, por isso, menos envolvente. As músicas, a indumentária, a iluminação e a própria arquitetura do museu contracenaram harmoniosamente com os atores. Uma boa dose de arte, da maneira mais clichê, para encher a minha alma antes de cair na folia conimbricense.

Mas não quero, é claro, excluir o caráter artístico da grande Queima das Fitas. Estamos falando de grandes artistas e grandes obras de arte! A arte de transformar papel crepom em carros alegóricos. De ser equilibrista, trepidar mas manter-se de pé em um caminhão que freia de um em um minuto após doses e mais doses e mais doses... A arte de calar para ouvir e sentir a serenata. A arte da tradição! Como foi bom fazer parte. Desde que eu era pequena minha mãe diz que adoro fazer arte. Repito: que seria de mim sem ela?

Pois. Justificada a minha abordagem das próximas atualizações, deixo vocês com gostinho de Queima na boca. Adianto que foram sete dias de folia e brincadeira mas que eu, sendo uma só, não consegui abraçar tudo. Vejam bem, tentem entender a dimensão do "coiso"! Houve torneio de bilhar, poker, caça ao tesouro, guerra de travesseiro, tourada, baile, chá dançante, concuso de banda e tal e coisa e coisa e tal que vem se estendendo por bem mais que sete dias! Vou, timidamente, falar à vocês da pontinha do iceberg que tive o privilégio de vivenciar... mas não agora que já é hora de dormir.

Não se avexem, não. Já já tem mais!

terça-feira, 4 de maio de 2010

"Acalma o grelo. A queima vem aí."

Eis o enunciado do outdoor ao pé da Universidade.

A Queima das Fitas começa na madrugada de quinta para sexta. A imagem mais palpável que criei pelo que ouvi até agora é de um mar de estudantes portugueses, trajados com suas capas de super-heróis, às ruas de Coimbra, de peito estufado e com a certeza de que, como super-heróis da Queima, podem tudo.

Não há aulas durante os dias da Queima. Nem aulas nem nada, ou quase nada, além dela. Penso aqui com meus botões que deve lembrar vagamente o nosso Carnaval mas, é claro, com um "Q" bem grande de tradição secular. Eu e minha mania de comparar aqui e acolá.

Mais que uma desculpa para beber, é uma festividade tradicionalíssima não só em Coimbra como em Portugal de maneira geral. Há no Porto, há em Lisboa, mas não é vivida com a mesma intensidade que na mais estudantil cidade lusitana. Pelo menos foi isso que me disse a Sophia, minha colega de estágio.

Sophia é casada a um ano e conheceu seu atual marido na Queima de 2001. Foi mais ou menos assim:

Estava ela com orelinhas de Minie que acabara de ganhar no happy meal (Mc lanche feliz) a percorrer as enumeras barracas de bebidas. A cada shot tomado era menos um pouco para a meia noite. Estava a espera das badaladas para comemorar o seu aniversário quando ele veio.

- Porque tás a usar estas orelhas? perguntou ele.
- Porque faço anos.
- Não, credito. Pois faço também! Como te chamas?
- Sophia, e tu?
- Não vais apanhar, são só três letrinhas...
- Hum, deixa-me pensar... Rui!
- Isso mesmo! Acertastes. És a mulher da minha vida, serás mãe dos meus filhos.

(É, rimos muito juntas! Podem rir daí também. Foi bem desse jeitinho.)

Uma semana depois, no show da Daniela Mercury, começaram a namorar.

Não, meus queridos brasileiros, não estou a dizer que a Queima é o lugar mais propício para dar inicio a romances eternos. É mais para histórias eternas. É justamente a raridade do acontecimento que o torna especial. Tão especial que vai entrar para o meu repertório. Afinal, é mesmo disso que é feita a boa vida: momentos raros e especiais.

Mas vamos falar da Queima tradicional.

Renderia, pá, linhas infinitas falar de todos os detalhes dessa festividade. Vou deixar para contar depois que eu ver tudinho com esses olhos que a terra um dia há de comer. Menos disse me disse e mais téti a téti. Por enquanto vou esclarecer apenas o tal do grelo.


É que na Queima das Fitas os estudantes do segundo ano das faculdades queimam a ponta do grelo no caldeirão em frente à Sé Nova. "Izatament", o grelo: uma fita, tipo de lã, da cor do curso, que eles levam junto ao peito no dia da Queima. O grelo faz parte do traje e só se pode usar depois deste ritual. Daí nome.

Depois disso, o grelo ainda é usado para umas tantas outras coisas mas isso é assunto para um outro post...

P.S: Foto 1, Serenta no primeiro dia da Queima, em frente à Sé Velha. Foto 2, queima do grelo em frente à Sé Nova.


segunda-feira, 26 de abril de 2010

U.C. e eu...

Eu sei que demora, mas é que o tempo passa tão rápido que é difícil encontrar uma brecha para escrever.

Hoje queria dizer que já sinto saudades, mas é daqui. Já estou na metade do caminho. Já em ritmo de provas. Já com o coração amando dois amores. O amor pela menina dos olhos de Portugal e pela musa inspiradora do samba e das bossas no meu Brasil. Folgo dizer "minha Coimbra". Digo segura, "minha Cidade Maravilhosa". De um lado são aqueles beijos que parecem não ter fim, como quando se beija sabendo que em pouco tempo vai-se embora. Do outro é o carinho que só aumenta até quase explodir, que aperta ate quase doer, sabendo que o encontro se aproxima.

Mas deixemos o Rio pra quando eu volta pro Rio.

A alma de coimbra é mesmo a U.C.. Há campus universitários espalhados por toda a cidade, bem como infraestrutura que possibilita seu bom funcionamento. Alojamentos e residências estudantis, principalmente próximas à Praça da República, à Sé Velha, a parte mais antiga e histórica de cá. Também a parte mais badalada, especialmente às terças e quintas à noite (o que não exclui todos os outros dias da semana). Há ainda as cantinas aos montes, linhas de ônibus (do sistema municipal de transporte) que funcionam em função do calendário e horário universitário, como também as tantas bibliotecas que chegam a ocupar salões e corredores de algumas faculdades, repletas de jóias.


Ser estudante em Coimbra é algo que todas as palavras que eu possa escrever aqui não alcançam.


A minha faculdade, Psicologia e Ciências da Educação, me parece ser um dos mais antigos prédios da Universidade. Antigo, não velho. Tem as suas adaptações mas conserva as escadarias de pedra gasta, os azulejos pintados à mão, as passagens arqueadas forradas de tijolos sem reboco, a frieza interna das paredes de pedra, grossas. No centro, um claustro, assim como em várias outras contruções de cá. Não é preciso esfororço para se reportar à vários anos atraz quando se vê os estudantes de hoje, trajados, com suas capas pretas, a circular pelos arcos do claustro. Lembra mesmo Hogwarts.

Como eu disse, antigo, não velho, tampouco mal cuidado ou ultrapassado. Em cada sala, cada uma delas, há um computador na mesa do professor, com internet livre como em qualquer outro espaço da universidade. Há também um projetor e caixas de som bastante utilizados tanto pelos professores quanto pelos alunos em suas apresetações de trabalhos.

Colóquios, seminários e tertúlias são recorrentes. Uma pena só haver 24 horas por dia, 7 dias por semana. Com só isso de horas, a semana não abraça nem um terço do que eu gostaria.
Há os prédios novos do polo II, de engenharia, mas desses quase nada sei. Há os hospitais que ainda não conheço. Há tantas outras coisas que me faltam em apenas 3 meses. Minha irmã linda já me dizia: "Podiam vender tempo a varejo."




P.S.: Vídeo gravado logo na primeira semana em Coimbra, prédio principal, reitoria. Fotos, em ordem: parte da Praça da República; Sé Velha; Faculdade de Psicologia e Ciências da Educação.

sexta-feira, 9 de abril de 2010

Água na boca.



Falta o "B" mas é que eu fiquei com fome. Comi. Uma das coisas mais prazerosas por aqui é comer.

Comecemos pelas cantinas. Tem a dos grelhados, a vegetariana, a amarela, a dos hospitais, do dric, a verde, a do isec, a da sereia... Há cantinas estudantis variadas e abertas a todos com refeições à partir de €2,15. Esta inclui pão+sopa+prato principal+água ou refresco+sobremesa doce ou fruta. Há pães variados como em toda terra lusitana que se preze. As sopas são cremosas, quentinhas, vira e mexe tem caldo verde, a canja é sopa de macarrão conchinha com galinha (só!) e mesmo assim é gostosa. O prato principal vem muito bem servido mesmo! É difícil comer tudo. Além de bacalhau, natas e batatas, tem muita carne de porco na dieta portuguesa mas felizmente sempre há peixe fresco como segunda opção. É de lamber os beiços! A sobremesa costuma ser arroz doce, que é muito típico aqui, leite creme ou pudim. As frutas no começo pareciam todas pêras. A maçã e até a banana tinham gosto de pêra. Agora já diferencio bem. Devo ter começado com uma safra meio esquisita. Sempre tem laranja. As laranjas aqui são suculentas, doces no ponto certo. Como laranja praticamente todos os dias. Poderia dizer que é pelo sabor; Poderia dizer que é por que me faz sentir mais saciada ao final da refeição; Ou ainda que como seguindo conselhos que me foram dados de coração; Poderia dizer que é porque lembra meu pai que dedicava longos momentos da refeição descascando a laranja em espiral, limpando a pele branca e comendo gomo por gomo; Mas como porque como e poderia dizer que estou me viciando em laranja.

Nos mercados tudo que é engordativo é uma pechincha: muita comida pronta e congelada, sacos colossais de batata chips, chocolates, sorvetes, doces, pães, queijos... Ah... os queijos! São de fazer virar os olhos (mas estes são mais caros). Há fiambre (nosso vulgo presunto) de vários subtipos e há o presunto, que é bem vermelho, quase vinho, seco e salgado. Fora o salame, chouriço, chourição, e mais um monte de embutidos. Petiscos não faltam para se apreciar um bom vinho, mas o vinho rende um post à parte qualquer dia desses. Em meio a isso tudo, há saladas! Sim! Saladas, peixes, cereais, legumes, frutas, etc e tal. Dá pra ser saudável, só é difícil.

Toda a semana há jantares na casa de um ou de outro. Os convidados levam bebida e o anfitrião oferece a comida. Geralmente são uma socialização pré-nigth. Há os de aniversário, os de desculpa pra beber, os que surgem na hora por que todos se juntaram na cozinha pra um dedinho de prosa e há também os temáticos. Já teve turco, alemão com polonês e, é obviamente, o brasileiro, com direito à arroz, feijão, farofa e caipirinha.

Sobre os restaurantes eu sei pouco. Provavelmente em Julho poderei discorrer um pouquinho sobre isso mas por enquanto é só cantina, e olhe lá!

Só de escrever já está me dando água na boca e daí mesmo que eu tiro a solução para o meu problema: muita água na boca! Garrafinha na bolsa é indispensável. Chá gelado ou quente também ajuda muito. Estou me empenhando para não descer rolando do avião quando pousar na minha cidade maravilhosa.

Enfim, a foto acima fui eu quem tirei do meu prato de sopa de letrinhas que a Francy fez. A foto abaixo, na minha residência, foi de um fotógrafo amador anônimo, não é das melhores mas é a que eu tenho e que tem a maior parte das pessoas reunidas. Não reparem nas datas sem nexo.

Espero que tenham sentido o gostinho de alguma coisa daqui. Se não, sempre é tempo de fechar os olhos e se abrir para os sentidos e para a imaginação. Porque não?

Bom apetite à todos.