domingo, 25 de julho de 2010

Não acaba nem tira férias.

"Amar até, amar até, até quando Deus quiser..."


Era uma vez uma menina que bebia demais...
Assim começa uma das histórias que me contaram. Quem contou não viu, mas escaparam sorrisos com covinha do meu rosto. Um início pouco tradicional mas assim já começaram alguns tantos contos, sagas, epopéias e historietas românticas.

Me contaram porque ando a cata de histórias de amor. Tenho me alimentado delas. Elas estão por toda parte: nos fados, nas músicas de Xutos e Pontapés e de Maria Clementina, na memória dos que se apaixonaram, nos livros. Não passo fome.

Comprei um livro de um distante parente português. Chama-se Frederico Lourenço. Se um dia escreverem um livro lembrem-se que ainda que o ditado popular nos ensine o contrário, julga-se o livro pela capa. Foi ela que me atraiu. Discreta e pálida, de cartão flexível e macio. No topo o nome do autor, ao pé "livros cotovia" com letras menores e um passarinho azul (ví logo que era aquele que conta as coisas que não se sabe quem contou). Entre o topo e o pé, um pouco mais acima do meio, em letras grandes e azuis: Amar não acaba. Deixo em aberto o que corre pelas páginas do livro em prol do exercício da imaginação.

Um dia desses estava a toa no trabalho a passar os canais quando ví em Hollywood o título "O amor não tira férias". Mais uma vez a imaginação veio à tona porque milagrosamente o restaurante encheu e não consegui ver nada do filme enquanto sorria para os clientes.

Juntando as coisas cheguei à conclusão imaginária de que "amar não acaba nem tira férias". Entretanto, aconteceu que uma das belas história que me contaram depois carregava consigo um suspiro final: "Lindo, né? Pena que a vida não é toda assim." Eu quis muito mas não soube dizer o que acontece com amar quando parece que amar não está. Daí eu disse apenas: " Bem... depois você comenta esse texto." (Este mesmo. É que eu estava escrevendo enquanto me contavam).

Não foi a resposta merecida mas nem sempre eu tenho as palavras que gostaria. Quem sabe, algum de vocês que passam por aqui as tenham. Se tiverem me dêem este presente. Se não, me dêem ao menos um história para o pequeno almoço.


http://www.nletras.net/maria-clementina-veio-a-maria-clementina/

P.S.: Pequeno almoço é como chamam café da manhã aqui.
Foto de Angela M. Lourenço

sábado, 17 de julho de 2010

Percebes?

"I say high, you say low
You say why
And I say I don't know
Oh, no
You say goodbye
and I say hello
Hello, hello..."


Como todos os dias, acordei cedo. Acordei até mais cedo que o de costume mas ainda assim tive que correr pra não perder o autocarro. No autocarro descobri que o meu cartão de passe não funciona na paragem mais próxima da minha casa. Vejam bem, eu expliquei pra rapariga que fez o meu cartão que eu queria ir todos os dias das Guardeiras à Matosinhos e paguei pelas respectivas zonas, como manda a boa conduta. Mas, segundo o motorista, eu teria que andar até a próxima paragem, aí sim, tomar o bonde. Teria. Mas se eu demorar dois minutinhos procurando o cartão na bolsa, já dentro do veículo, não tenho. É o tempo de chegar na próxima paragem e pronto. Jeitinho brasileiro? "É sinsinhôra"! Mas também os portugueses inventam cada uma!

A lingua é a mesma em teoria mas na prática eu tenho as minhas dúvidas. Existe um vão na comunicação para além do meu vão entendimento. Se camisola se usa em tempo frio, durex é preservatio e quando ofereço refrigerante os miúdos perguntam-me "tem picas?", concordam comigo que as diferenças linguísticas causam, no mínimo, ruídos na comunicação?

Talvez não seja novidade o próximo caso porque já contei para algumas pessoas, mas numa das noitadas de Coimbra aconteceu assim:
A fome bateu avassaladora no meio da pista de dança da Associção Acadêmica. Fomos à Praça da República comer uma sandes ( o nome que dão para sanduiche aqui, e não é gíria). O diálogo foi o seguinte:
- Boa noite. Quanto custa? (apontando pro lado onde tinha um grande variedade de sandes)
- Dois euros.
- Todos eles?
- Não senhora, cada um.
Será que estavamos com tanta cara de fome pro gajo achar mesmo que queriamos os 20 sanduiches da montra (vitrine)?
Há momentos em que eu até entendo a razão da literalidade e clareza de cá. Até faz algum sentido, mas a verdade é que brasileiro aprende na vida, às vezes na marra, a ser bom entendor: meia palavra basta. Já aqui pra cada palavra tem de se dizer uma e meia... Ó pá, fógo! E ai de tí que não percebas! Vejam só a coitada da Anabela (podem clicar que o link é confiável):

http://www.youtube.com/watch?v=hIrRNFa8OiA&feature=PlayList&p=4645E17F5561CD2C&playnext_from=PL&playnext=1&index=102

P.S.1: Créditos o Saturato por me apresentar Anabela.
P.S.2: Hoje falta exatamente um mês. \o/

terça-feira, 13 de julho de 2010

Um é pouco, dois é bom, três dá samba!


Foi isso que disse o italiano amigo do pizzaiolo da Di Legna: "Trabalhar com um brasileiro é bom, com dois é melhor ainda, mas com três dá samba." E dá mesmo! Consegui um trabalho temporário como empregada de mesa, balcão, atendente de telefone e caixa, além de "passar um paninho" nas coisas porque, segundo o chefe, não custa nada. Até seria demais se fosse em outro lugar mas lá na sobra tempo e brasileiro com tempo de sobra faz o que? Samba! Os dias correm com os gajos cantarolando grandes clássicos.

No meu primeiro dia de trabalho saí direto pra um club com música brasileira ao vivo de altíssima qualidade, mais mpb. No segundo não faltou vontade mas faltou companhia pro samba que rola aqui mesmo, em Matosinhos, no "Blá blá" ou no "Vicio da Carne". Nao é um "Samba do Ouvidor" ou um "Beco do Rato", mas vale...

A Di Legna fica a poucos minutos da praia de Matosinhos. Isso me deixa em uma situação no mínimo agradável e me concede bons momentos como, por exemplo, o de agora: eu e meu zézinho (meu branquinho perolado da acer), de frente pro mar, à sombra de uma árvore, deitados na canga estendida sobre a grama a ouvir o barulho das ondas, músicas de Chico Buarque e o som das pessoas que perambulam por aqui a aproveitar a tarde de sol.

Só de pensar que meus intervalos vão passar assim alguns dias, noutros serão num café a tomar chocolate quente e escrever um pouquinho sobre minhas divagações ou ainda de algum outro jeito delicioso que dá pra se inventar, já consigo ter ânimo de acordar cedo pra vir pra cá. Até porque não será por muito tempo essa brincadeira. Dura mais uns 2o dias no máximo e eu não quero perder nem sequer um deles. Pois é, está quase no fim.

Estive aqui a pensar, hoje mesmo, no jargão que diz: "No final tudo acaba bem. Se não está bem é porque ainda não é o final". Pois o final está a me fazer timidas cócegas! Só pra lembrar, faltam 23 dias pra abraçar a minha irmã, 36 pra pisar em solo carioca, 38 para o meu próximo fim de semana na Lapa, 40 para comer pastel da feira e feijão-com-tudo-dentro da mamãe, entre outras coisas que estão agendadas no meu coração.
Enfim, enquanto não chega o tão esperado dia, aproveito tudo que o final tem pra me oferecer, na arquitetura antiga que dá charme às ruas, no sotaque português que me faz rir, no sotaque brasileiro que faz sorrir, na água gelada do mar que refresca as tardes de sol na praia, nas surpresas que mudam o rumo das coisas, em tudo que não cabe nessas palavras... Até a última gota!

P.S.: Que rumo dessa prosa... o final nem parece que é do mesmo post que o começo. Acho que foi o mar que deu um caixote nas minhas idéias.

domingo, 11 de julho de 2010

Será tudo passageiro?


Dizem que mãe sempre sabe. Diz minha mãe que "quem não escuta conselho escuta 'oh, coitado'", que "quem a sua boa cama faz, nela se deita", que quando eu ia com as castanhas ela já vinha com os cajús e, com aquela habilidade incrível de contar piadas, que "na vida tudo é passageiro - menos o trocador e o motorista." Pois bem, pra começar eu nunca entendi a real importância dos motoristas de metrô. Penso que eles devem levar umas revistas pra cabine, uns salgadinhos, e aquele fone enorme que às vezes os vejo usando deve tocar mó sonzão ou ainda um mantra pra medidar de uma estação à outra. Pra mim, o cérebro eletrônico será, fácil fácil, o futuro condutor de metrô. Descartada aí a parte "motorista" da vida.

Também os tempos de trocador já se esvairam. Cá no Porto é assim: compra-se o bilhete "andante", que é de papel e recarregável, em um terminal eletrônico que há em todas as estações de metro (que se diz métro). No terminal há uma lista com todas as paragens e a respectiva equivalência como zona ( Z2, Z3, Z4, e assim por diante). Quanto mais distante a zona, mais caro é para carregar o bilhete, que serve tanto para autocarros quanto pra metro. Em teoria, é obrigatório validar o bilhete numa caixinha amarela fincada no espaço sempre que for utilizar o transporte. Ele é válido por uma hora para tomar quantos veículos for necessário. Na prática: bilhete comprado e validado segundo a moral de cada um.

Perguntem-me lá: será que alguém pode burlar as regras? Mas é claro! Podem até entrar no metro sem despender um tostão. O acesso é livre! Ou ainda: podem comprar um bilhete para Z2, o mais bartinho, validar para que os outros passageiros não te olhem torto e ir até Z200 (se existisse) sem validá-lo novamente. Digo sem pestanejar que muitos brasileiros encontrariam ainda outros mil modos muito criativos para dar um jeitinho de não pagar as passagens. O problema aqui é quando um fiscal surpesa, que as vezes surge dentro dos veículos com uma maquininha-checa-conduta, pega algum sujeito-mané no flagra. Além da vergonha, são € 70,00 de multa.

Parece que por aqui este sistema está a correr bem. Já agora não me é dificil ver tudo por aqui como passageiro. Mas pergunto a vocês: Será que no Brasil será tudo passageiro? Me parecia algo fora de cogitação mas já me engnei tantas vezes. Seria só mais uma.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Foi. Fim.


Foi, pelo menos, uma ótima oportunidade de ficar junto do meu povo. Ainda que timidamente agrupados, como no "amistoso" contra Portugal, os brasileiros estavam sempre presentes. O primeiro jogo, ainda em Coimbra, foi de torcida quase unanime nos jardins da Associação Acadêmica. Em Brasil x Coréia, o resultado fez rolar roda de samba e torcedores pelo gramado às cambalhotas. Neste dia minhas malas já estavam prontas e eu já me preparava para dar tchau a Coimbra e olá ao Porto. Estar ao lado das queridas meninas do Recife, do Sul, de Minas, das cariocas e todos os outros foi mais valioso que o placar final em sí. Não esquecendo que o gostinho da vitória dá um tempero especial à diversão! Foi mais uma das boas despedidas de Coimbra. Sinto até que parti de lá em boa hora. Antes que todos já tivessem ido embora. Antes que a Residência Pedro Nunes virasse só saudade.

No segundo jogo eu já estava a respirar novos ares lusitanos. No Porto, assisti a partida no conforto do sofá com direito a skol (o que é quase refresco em comparação à super bock ou sagres) e uma caipirinha meio torta (com açúcar amarelo). Para comemorar o resultado de Brasil x Costa do Marfim fomos perambular com os nossos meiões verde e amarelo até parar no Café Paris: belíssimo! Com vitrines de quatro ou cinco metros de altura que ocupavam as paredes do chão ao teto cheias de cacarecos e quinquilharias antigas, do jeitinho que eu gosto. A luz era quase que só a das velas às mesas. Havia um rapaz que de tempos em tempos fazia o piano chorar ou bossanovar e eu, é claro, aplaudir sem fazer muito som, só para mostrá-lo o meu apreço! Terminamos a noite ainda a dançar forró, samba, ou quase isso, e pular ao som baiano com uns tugas que têm a metade do coração brasileiro, por sorte são pilotos e quando dá na telha vão fanfarrear atraz do trio.

Em Brasil x Portugal fomos a la praia de Matosinhos. E não é que por aqui dá mesmo praia! Pintou muita gente de trajes de banho a tostar nas areias e se refrescar no mar gelado. Alguns gatos pingados verde-amarelos foram também para o meio da portugaiada de camisola (que aqui significa blusa de manga comprida) ver aquele joguinho de comadres. Não entendo até agora porque os nativos de cá não paravam de aplaudir e soprar suas vuvuzelas (tipo cornetas de plástico e som grave). Tanto barulho por causa de uma não derrota? Mas foi engraçadinho ouvi-los torcer. Algo como "ó pá, fógo, foudass...".

O rio Douro foi o cenário de Brasil x Chile. Na ribeira havia apenas um chileninho (não é chinelinho) a sofrer no meio da massa brasileira que vibrava a cada gol. Este jogo pedia como trilha sonora Benjor cantando: Só não entramos com bola e tudo por humildade. Foi uma belezura. No fim do jogo, alguns canadenses e outros brasilieros residentes na Inglaterra já haviam se agregado a nossa mesa para compartilhar as alegrias do resultado.


Achava eu que assistir o jogo à beira do Douro traria sorte novamente... ledo engano. Pra começar não sei de onde surgiu tanto holandês. Estavam lá bem menos exibidos que os brasileiros mas foram eles que roubaram a cena e dançaram o vira já que os portugueses falharam na tentativa. Daí: Fim. Pelo menos para mim. Depois me contem qual a seleção campeã de 2010.


Mas daqui a 4 anos a história vai ser outra eu estarei lá, ou melhor, aí.


Foto 1: Dia de jogo no Jardim da A.A.C.
Foto 2 e 3: Café Paris
Foto 4: Chileninho
Foto 5: Ribeira em dia de jogo