terça-feira, 13 de julho de 2010

Um é pouco, dois é bom, três dá samba!


Foi isso que disse o italiano amigo do pizzaiolo da Di Legna: "Trabalhar com um brasileiro é bom, com dois é melhor ainda, mas com três dá samba." E dá mesmo! Consegui um trabalho temporário como empregada de mesa, balcão, atendente de telefone e caixa, além de "passar um paninho" nas coisas porque, segundo o chefe, não custa nada. Até seria demais se fosse em outro lugar mas lá na sobra tempo e brasileiro com tempo de sobra faz o que? Samba! Os dias correm com os gajos cantarolando grandes clássicos.

No meu primeiro dia de trabalho saí direto pra um club com música brasileira ao vivo de altíssima qualidade, mais mpb. No segundo não faltou vontade mas faltou companhia pro samba que rola aqui mesmo, em Matosinhos, no "Blá blá" ou no "Vicio da Carne". Nao é um "Samba do Ouvidor" ou um "Beco do Rato", mas vale...

A Di Legna fica a poucos minutos da praia de Matosinhos. Isso me deixa em uma situação no mínimo agradável e me concede bons momentos como, por exemplo, o de agora: eu e meu zézinho (meu branquinho perolado da acer), de frente pro mar, à sombra de uma árvore, deitados na canga estendida sobre a grama a ouvir o barulho das ondas, músicas de Chico Buarque e o som das pessoas que perambulam por aqui a aproveitar a tarde de sol.

Só de pensar que meus intervalos vão passar assim alguns dias, noutros serão num café a tomar chocolate quente e escrever um pouquinho sobre minhas divagações ou ainda de algum outro jeito delicioso que dá pra se inventar, já consigo ter ânimo de acordar cedo pra vir pra cá. Até porque não será por muito tempo essa brincadeira. Dura mais uns 2o dias no máximo e eu não quero perder nem sequer um deles. Pois é, está quase no fim.

Estive aqui a pensar, hoje mesmo, no jargão que diz: "No final tudo acaba bem. Se não está bem é porque ainda não é o final". Pois o final está a me fazer timidas cócegas! Só pra lembrar, faltam 23 dias pra abraçar a minha irmã, 36 pra pisar em solo carioca, 38 para o meu próximo fim de semana na Lapa, 40 para comer pastel da feira e feijão-com-tudo-dentro da mamãe, entre outras coisas que estão agendadas no meu coração.
Enfim, enquanto não chega o tão esperado dia, aproveito tudo que o final tem pra me oferecer, na arquitetura antiga que dá charme às ruas, no sotaque português que me faz rir, no sotaque brasileiro que faz sorrir, na água gelada do mar que refresca as tardes de sol na praia, nas surpresas que mudam o rumo das coisas, em tudo que não cabe nessas palavras... Até a última gota!

P.S.: Que rumo dessa prosa... o final nem parece que é do mesmo post que o começo. Acho que foi o mar que deu um caixote nas minhas idéias.

domingo, 11 de julho de 2010

Será tudo passageiro?


Dizem que mãe sempre sabe. Diz minha mãe que "quem não escuta conselho escuta 'oh, coitado'", que "quem a sua boa cama faz, nela se deita", que quando eu ia com as castanhas ela já vinha com os cajús e, com aquela habilidade incrível de contar piadas, que "na vida tudo é passageiro - menos o trocador e o motorista." Pois bem, pra começar eu nunca entendi a real importância dos motoristas de metrô. Penso que eles devem levar umas revistas pra cabine, uns salgadinhos, e aquele fone enorme que às vezes os vejo usando deve tocar mó sonzão ou ainda um mantra pra medidar de uma estação à outra. Pra mim, o cérebro eletrônico será, fácil fácil, o futuro condutor de metrô. Descartada aí a parte "motorista" da vida.

Também os tempos de trocador já se esvairam. Cá no Porto é assim: compra-se o bilhete "andante", que é de papel e recarregável, em um terminal eletrônico que há em todas as estações de metro (que se diz métro). No terminal há uma lista com todas as paragens e a respectiva equivalência como zona ( Z2, Z3, Z4, e assim por diante). Quanto mais distante a zona, mais caro é para carregar o bilhete, que serve tanto para autocarros quanto pra metro. Em teoria, é obrigatório validar o bilhete numa caixinha amarela fincada no espaço sempre que for utilizar o transporte. Ele é válido por uma hora para tomar quantos veículos for necessário. Na prática: bilhete comprado e validado segundo a moral de cada um.

Perguntem-me lá: será que alguém pode burlar as regras? Mas é claro! Podem até entrar no metro sem despender um tostão. O acesso é livre! Ou ainda: podem comprar um bilhete para Z2, o mais bartinho, validar para que os outros passageiros não te olhem torto e ir até Z200 (se existisse) sem validá-lo novamente. Digo sem pestanejar que muitos brasileiros encontrariam ainda outros mil modos muito criativos para dar um jeitinho de não pagar as passagens. O problema aqui é quando um fiscal surpesa, que as vezes surge dentro dos veículos com uma maquininha-checa-conduta, pega algum sujeito-mané no flagra. Além da vergonha, são € 70,00 de multa.

Parece que por aqui este sistema está a correr bem. Já agora não me é dificil ver tudo por aqui como passageiro. Mas pergunto a vocês: Será que no Brasil será tudo passageiro? Me parecia algo fora de cogitação mas já me engnei tantas vezes. Seria só mais uma.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Foi. Fim.


Foi, pelo menos, uma ótima oportunidade de ficar junto do meu povo. Ainda que timidamente agrupados, como no "amistoso" contra Portugal, os brasileiros estavam sempre presentes. O primeiro jogo, ainda em Coimbra, foi de torcida quase unanime nos jardins da Associação Acadêmica. Em Brasil x Coréia, o resultado fez rolar roda de samba e torcedores pelo gramado às cambalhotas. Neste dia minhas malas já estavam prontas e eu já me preparava para dar tchau a Coimbra e olá ao Porto. Estar ao lado das queridas meninas do Recife, do Sul, de Minas, das cariocas e todos os outros foi mais valioso que o placar final em sí. Não esquecendo que o gostinho da vitória dá um tempero especial à diversão! Foi mais uma das boas despedidas de Coimbra. Sinto até que parti de lá em boa hora. Antes que todos já tivessem ido embora. Antes que a Residência Pedro Nunes virasse só saudade.

No segundo jogo eu já estava a respirar novos ares lusitanos. No Porto, assisti a partida no conforto do sofá com direito a skol (o que é quase refresco em comparação à super bock ou sagres) e uma caipirinha meio torta (com açúcar amarelo). Para comemorar o resultado de Brasil x Costa do Marfim fomos perambular com os nossos meiões verde e amarelo até parar no Café Paris: belíssimo! Com vitrines de quatro ou cinco metros de altura que ocupavam as paredes do chão ao teto cheias de cacarecos e quinquilharias antigas, do jeitinho que eu gosto. A luz era quase que só a das velas às mesas. Havia um rapaz que de tempos em tempos fazia o piano chorar ou bossanovar e eu, é claro, aplaudir sem fazer muito som, só para mostrá-lo o meu apreço! Terminamos a noite ainda a dançar forró, samba, ou quase isso, e pular ao som baiano com uns tugas que têm a metade do coração brasileiro, por sorte são pilotos e quando dá na telha vão fanfarrear atraz do trio.

Em Brasil x Portugal fomos a la praia de Matosinhos. E não é que por aqui dá mesmo praia! Pintou muita gente de trajes de banho a tostar nas areias e se refrescar no mar gelado. Alguns gatos pingados verde-amarelos foram também para o meio da portugaiada de camisola (que aqui significa blusa de manga comprida) ver aquele joguinho de comadres. Não entendo até agora porque os nativos de cá não paravam de aplaudir e soprar suas vuvuzelas (tipo cornetas de plástico e som grave). Tanto barulho por causa de uma não derrota? Mas foi engraçadinho ouvi-los torcer. Algo como "ó pá, fógo, foudass...".

O rio Douro foi o cenário de Brasil x Chile. Na ribeira havia apenas um chileninho (não é chinelinho) a sofrer no meio da massa brasileira que vibrava a cada gol. Este jogo pedia como trilha sonora Benjor cantando: Só não entramos com bola e tudo por humildade. Foi uma belezura. No fim do jogo, alguns canadenses e outros brasilieros residentes na Inglaterra já haviam se agregado a nossa mesa para compartilhar as alegrias do resultado.


Achava eu que assistir o jogo à beira do Douro traria sorte novamente... ledo engano. Pra começar não sei de onde surgiu tanto holandês. Estavam lá bem menos exibidos que os brasileiros mas foram eles que roubaram a cena e dançaram o vira já que os portugueses falharam na tentativa. Daí: Fim. Pelo menos para mim. Depois me contem qual a seleção campeã de 2010.


Mas daqui a 4 anos a história vai ser outra eu estarei lá, ou melhor, aí.


Foto 1: Dia de jogo no Jardim da A.A.C.
Foto 2 e 3: Café Paris
Foto 4: Chileninho
Foto 5: Ribeira em dia de jogo

terça-feira, 29 de junho de 2010

Se a Analha não quiser ir eu vou só!

"As aves que aqui gojeiam, não gorjeiam como lá."

Portugal conquistou o Brasil? Pra você ver como são os rumos da história... Se estivessem cá concordariam comigo sem sombra de dúvidas: Brasil conquistou Portugal! Eles nos adoram! Até mesmo a estupidez esporádica, propria dos lusos, é pura manifestação exacerbada da vontade que têm da gente verde e amarela! É que cá eles nos querem todos e em tudo. Querem nossa seleção pra continuar a torcer na Copa. Querem nossa alegria pra cortar a resmunguice. A nossa cachaça e o nosso limão verde (que aqui chamam lima) pra fazer caipirinha. E querem a nossa música. A voz, a melodia, a poesia brasileira ritmada.

Imaginem a minha sensação quando às voltas com uns tugas ouço um extenso repertório de Chiclete com Banana com direito a "joga a mão pro alto", "sai do chão" e "vai vai"! Os gajos por pouco não me mostraram uma tatuagem de camaleão no peito! Caetano Veloso, Maria Betânia, Martinho da Vila, Adriana Calcanhoto, Marcelo D2, O Rappa, Natiruts, Carlos Malta... isso é só uma palinha do que tem rolado de show pelo Porto, Lisboa e adjacências nos últimos dias.

Estou convencida de que uma das apresentação foi mesmo um presente para mim. Não era Circo Voador nem Fundição Progresso mas eram elas e isso é o que importa! Céu & Roberta Sá na Casa da Música. Pra quem nao sabe, meu último show em solo carioca foi na Fundição, da Roberta. Se quiserem ter idéia do que foi há fotos minhas pingando de tanto suar no orkut. Além disso, saí do Rio numa onda de Céu e perdi o show dela no Circo. Quando soube que as duas estariam juntas tão pertinho de mim tratei de ir "a cata" de companhia para minha noite mpb. Sem sucesso na minha busca eu fui só, mas fui.
"Eu vou pra maracangalha eu vou...
se a Analha não quiser ir eu vou só
Sem Analha mas eu vou!"

Evidente que nao fiquei só. No final do show da Céu, já inquieta por ter minhas cadeiras presas à confortável cadeira da elegante sala de concertos permaneci de pé durante a última música com mais alguns brasileiros que já não aguentavam mais danças de ombrinho. Durante o intervalo os corações já batucavam de expectativas: tinha que dar samba! Logo na segunda música a moça do vestido vermelho fez, saltar da cadeira a parte mais animada da plateia, e isso, é claro, me inclui. Em pouco tempo já havia uma quantidade considerável de bons "sambadores" ao longo das paredes laterais. Acreditem ou não havia até algumas portuguesas que deixariam muitas brasileiras no chinelo.
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"O nosso jogo é perigoso, menina.
Nós somos fogo e gasolina."
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Foram mesmo dois show fabulosos com direito a participação de Carlos Malta e fado num dueto de Antônio Zambujo com Roberta.

No fim das contas os mais saidinhos foram parar entre o palco e a primeira fila: umas 15 cabeças que não paravam de dançar, rodar e se deliciar. Ela retribuia nossos sorrisos cantando a um metro de distância deles. Os meus olhos brilhavam, ela os viu e agradeceu com um show que me fez suar num tubinho preto e gastar a sola dos meus sapatos de bolinha. A saia rodada e a sandália me fizeram falta.

"Agora é hora de vibrar,
Mais um romance tem remédio.
Vou viajar, lá longe tem
O coração de mais alguém.
Não deixe idéia de não ou talvez
Que talvez atrapalha."
Foto 1: Sala Suggia, Casa da Música
Foto 2 e 3: Céu e Roberta Sá neste show.

sábado, 19 de junho de 2010

Um amor em cada Porto.

Só o ter flores pela vista fora
Nas áleas largas dos jardins exatos
Basta para podermos achar
A vida leve.
(Fernando Pessoa)

Lá pela terceira ou quarta vez que dei tchau pra Coimbra meu coração não estava mais tão apertado. Talvez seja por isso que os portugueses se dispedem incessantemente. As palavras de adeus ao telefone são algo assim: Vá, vá, beijinhos, vá, beijinhos, vá vá, beijinhos beijinhos, vá... E já houve casos em que eu mesma ouvi a Júlia, supervisora portuguesa da nossa residência, se despedir cinco vezes e puxar novos assuntos até a extensa despedida final. Talvez esse monte de tchau seja pra desamarrar o nó do coração. Dá pra entender. Quando não se dá tchau o nó fica mais apertado mesmo.
Pois cá estou agora, no Porto. Algo muito diferente dantes. Algo tão encantador quanto, apesar de "dífrennt" (esboço da pronuncia de Portugal). É possivel que mais um amor conquiste espaço em breve. É muito provável que o charme do Porto se acomode no meu coração junto à Cidade Maravilhosa e a Menina dos Olhos de Portugal. Veremos.


No meu primeiro dia fiquei a respirar os ares de dentro da nova morada mesmo, para acostumar os pulmões. Já no segundo fui bater perna. Chegando à Casa da Música soube logo que passaria um bom bocado de tempo alí. Um mar de miúdos inundava as escadarias da arquitetura prateada dos interiores da Casa. É claro que dei um jeito de conhecer um pouquinho do trabalho educativo. Além de uma visita com as crianças pelo espaço, assisti também a um workshop sobre o Sr. Mozart embalado pelo educador Paulo (que merece reconhecimento), pela Pequena Serenata Noturna e outras belas composições. Foi mesmo um lindo trabalho.

No mesmo dia, panfletos, placas, e lembranças de Encantos e Contos no CCBB me levaram a Casa da Animação. Está em cartaz uma exposição do processo todinho de feitura da adaptação de um conto do João do Rio, "O Homem da Cabeça de Papelão", conto que vale conhecer. Quando o sol começou a pensar em se pôr, lá pelas 20:00h, estive a rodear o Palácio de Cristal, passear pelos seus jardins. Há uma pontezinha que conduz a uma porção de terra firme no coração do pequeno lago. Há um Museu Romântico que infelizmente já estava fechado e o máximo que pude fazer foi tentar espreitar por cima do muro sem muito sucesso. Havia pavões passeando ao meu lado, patinhos e outras aves. Havia uma vista linda do Rio D'ouro por entre as brechas das árvores. E havia flores.

Na sexta feira, último dia do ano letivo da escolinha de Vila das Aves, finalmente cheguei à Ponte. Em nada a Escola da Ponte me desapontou. É tão incrível ou mais até do que eu imaginava. A simplicidade, a naturalidade com que ela se impõe como nada de extraordinário ou superior seduziu-me ainda mais. A Vila em si, que abriga a escola, é também um graça. Lugarzinho sossegado com casinhas-do-meio-do-nada, paredes de pedra, hortas, parreiras retocidas que constroem tetos nos quitais, rios que se beijam e flores, ai ai, as flores. Algumas vezes meus olhinhos chegavam verdadeiramente a brilhar. Mas a modernidade chega mesmo lá e há também grandes casarões e até um prédio no centro da Vila.

Ainda na sexta foi meu primeiro dia na noite do Porto. Bella Cruz é uma discoteca tipo high socity à beira mar. Não é muito meu gênero mas com nome na lista, não custa nada, pois não?

No sábado a Katy veio e Ana, minha anfitriã, nos levou a um bar mais estudantil, o Piolho. Não é necessário declarar maior simpatia por este que pela discoteca da noite passada, é?

Ontem foi dia de tomar vinho do Porto, comer cozido de bacalhau que a Maria fez, pão, alho, azeite, e foi dia de jogo, mas os jogos merecem um post a parte.

Ainda dava para me estender umas 30 linhas só sobre as pessoas bacanas que tenho conhecido, algumas miudezas dos lugares por onde andei, e a leveza dos últimos dias. Mas acho que já há linhas mais que suficientes.

Só pra lembrar, estou a menos de dois meses da Cadade Maravilhosa. Organizem suas agendas.

Foto 1: Escadas do Casa da Música (Não fica mais bonito com crianças? Imaginem só.)
Foto 2: Pôr do sol no jardim do Palácio de Cristal

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Era uma vez, um Caleb, português.



Fui ao mercado comprar nesperas há pouco. Não tinha. Parece que não é época. É que hoje meu velho faz anos. Completa quase meio século de vida. Quis comer uma nespera em homenagem à ele.

O Caleb, português, a quem muitos conhecem por Vitor, teve uma das oportunidades mais divertidas que se pode ter: Escolher um novo nome. Cá em Portugal a gente brinca disso às vezes: Joana Júlia, Maria Carolina, Filipa Cristina... Ele escolheu Caleb. E foi numa empreitada luso-americana que nasceu Polyana, carioca de coração, rapariga portuguesa de herança.

Chegou magrinho, noviço, em terras brasileiras. Nada de barrigão no gajo, parece que essa característica se desenvolve com o tempo. Mas o bigode... esse era genuíno, farto, do tamanho dos ideais que inundavam seu coração. E aqueles olhos verdes... os portugueses têm um certo charme no olhar, algo meio sério, qualquer coisa de descobridores, desbravadores. Décadas depois, ele continua lindo!

De volta às nesperas, não me lembro de tê-las comido nessa vida. Me lembro é das histórias de meu pai, que subia nas árvores do quintal do vizinho para pegar as tais frutinhas amarelas. Por aqui pego limão no pé, tangerina e hj mesmo peguei umas frutinhas quase ameixas, mas vermelhas por dentro, talvez sejam ameixas selvagens, sabe lá. Pego assim, na rua. Não preciso pular muro. Quem sabe em Dafundo, Liboa, terra das peripércia infantis do Sr. Lourenço, eu encontro algum quintal cheio de nesperas suculentas, esperando para serem arrancadas, deliciadas, de molecagem. Deus queira que o muro seja baixo!


Ao meu pai, a alegria de um miúdo traquinas, o peito aberto da juventude que se entega pelo que acredita, "todo o amor que houver nessa vida e algum trocado pra dar garatia"!


Foto 1: Nesperas
Foto 2: Nespereira de quintal

terça-feira, 8 de junho de 2010

Sobre promoções e velhinhos.


Já dei tchau pro voluntariado no Museu da Ciência. Doeu. Ainda assim sorri. Carreguei comigo a lembrança de miúdos quase prodígios, o riso eterno quado ouvir falar sobre as árvores graças a internacionalização de que as "arveres somos nozes", revi minha descrença no darwinismo, conheci pessoas boas no que fazem, encontrei um belo tema para minha monografia. Por só isso e por tantas outras maravilhosas coisas que fizeram este estágio muito precioso, sorri.

Já encerrei minhas aulas e exames. Falta dar ou meu professor de barba bem aparada algumas palavras sobre Fernando Pessoa que ainda nem comecei a escrever. Graças a internet posso enviar estes pormenores mais tarde, do Porto. É que vou pra lá em alguns dias. Tchau pra U.C. e em breve, tchau pra Coimbra. Ai ai...

Por enquanto ainda tenho aqueles afazeres pendentes de sempre e tenho as promoções. É sobre elas que eu quero falar. Será possivel dizer que não é algo na minha "área"? Basicamente ofereço argumentos que convençam o cliente a levar meu produto. Por vezes tem degustação. Por vezes não. Às vezes o produto é mesmo bom e as vezes... bem... Penso que tocar alguem através de sorriso e bons argumentos se encaixa bem na minha área.

Uma das promoções foi da Fanta Zero. Em pleno final de semana da "Queima" o que menos se procurava no mercado era por refrigerantes. Eu oferecia. "Não me apetece" pra lá, cabeças balançando negativamente e"Brigadissima" pra cá. Em meio a monotonia dia foram os velhinhos que fizeram a minha alegria naquele mercado.

O pimeiro, de paletó xadrez, boina, bengala, camisa, gravata, suéter, sandália com meia. O diálogo foi o seguinte:

- Que ofereces?
- Fanta zero.
- Conhaque?
- Não, Fanta zero.
- Ah. Não bebo.

Os velinhos de Coimbra são bem esteriotipados. Não há velhinho que se preze e não use boina. As senhoras com seus casacos pretos de lã ou malha grossa, cabelos braquinhos, broches, fivelas na cabeça, também honram seu estatuto de velhinhas. Comumente faltam-lhes dentes (e acreditem, até em alguns jovens).

Então veio o segundo, passo lento, como se caminhasse num parque a admirar as folhagens e o movimento dos traseuntes:

- Boa tarde! O senhor já conhece Fanta Zero? Gostaria de experimentar?
- Não, não conheço mas é que não me apetece beber nada agora. Hehehe. É que estou a procura da minha mulher que anda cá com o carrinho mas não sei onte ela tá. Não a vejo, hehehe, é pequenina, hehehe.

Impossivel não rir junto com a risadinha pueril daquele senhorzinho de, pá, uns setenta anos.

Veio ainda um terceiro que desencadeou uma conversa, no minimo, interessante:

- Antigamente tudo era natural. Antes de você nascer. O que não era, era proíbido.

Sorrí. Ele continou:

- Tudo que é natural faz bem, seja o que for. Mas hoje há muito açúcar, faz mal.

Para mim, nesta parte, ele não falava da fanta. Falava da Vida. Mesmo assim, não era o caso de analogias filosóficas e por isso continuei o meu trabalho:

- Mas esta fanta não tem açúcar. É zero.
- Você não tem nada a ver com isso mas a pior coisa que se pode beber é zero, é ligth. Você não tem nada a ver com isso, tás a ver? Tás a fazer o seu trabalho.

É a voz da experiência: "a pior coisa que se pode beber é zero, é ligth". Insisto! Ele falava mesmo da vida.

Teve piada (nosso "teve graça") trabalhar no final de semana da "Queima". Tenho mesmo muita sorte de sempre trabalhar em coisas agradáveis. Mas é como dizem:
"Não há trabalho ruin, o ruin é TER QUE trabalhar"
(Seu Madruga)